‘Segundo a filosofia de Mevlana, a pessoa pode nascer duas vezes: a primeira vez da sua mãe e a segunda vez, de si próprio’

‘Segundo a filosofia de Mevlana, a pessoa pode nascer duas vezes: a primeira vez da sua mãe e a segunda vez, de si próprio’Se eu fosse um moinho na Ilha de Rodes girando com o vento, enquanto minhas velhas asas estivessem em movimento, poderia ver a estátua Helios carregando honrosamente a tocha do amor e da liberdade. Queria estar no interior daquela carruagem puxada pelos quatro cavalos e que é jogada todo ano ao mar, perto da estátua de Helios. Se eu estivesse dentro dela, buscaria você com velocidade, por todos os lados dos mares.
Queria enfrentar muitos perigos para chegar até uma bruxa e poder olhar o futuro no globo mágico dela. Desejaria descobrir no globo dela, pronunciando palavras mágicas nos meus lábios, onde você está e o que está fazendo.
Um dia gostaria de me sentar numa praia desabitada e fazer castelos de areia gloriosos, com a agitação e a alegria de uma criança. Depois imaginaria viver dentro desses castelos com você, infinitamente.
Na cidade Urfa, diante de caverna na qual dizem ter nascido o profeta Ibrahim, perguntaria por você aos pombos que cuidam da entrada. E se eu fosse um dos peixes proibidos de serem pescados na piscina que existe dentro dela, nadaria tranquilamente com você ao meu lado e, por lá, passaria toda a minha vida com alegria e sem medo.
Existe um instrumento musical feito pelos sufis com uma cana. Eles queimam a cana por dentro com um ferro quente, perfurando-a. Após esse trabalho ela torna-se esse instrumento musical chamado ''ney''. Se eu tivesse uma dessas canas, a queimaria por dentro com um fogo de amor e me purificaria com força e vaidade. Alcançaria um afeto puro e de intensa claridade. Segundo a filosofia de Mevlana, a pessoa pode nascer duas vezes: a primeira vez da sua mãe e a segunda vez, de si próprio. Eu queria ter essa experiência e nascer, pela segunda vez, do meu próprio corpo. Se eu girasse dando muitas voltas, sem comer durante dias, me tornaria um dervish que, sempre girando por todos os lados, procura o amor puro. E como os dervishes fazem, finalmente, lá sacrificaria minha mente por seu amor, no grande ritual.
Um dia, se eu entrasse na caveira de Zaratustra, tomaria a decisão de nunca mais sair de lá, conversaria sossegado com os animais ao meu lado assim como Zaratustra fazia. Também conversaria comigo mesmo e com você, cuja imagem nunca saiu da minha mente.
Poderia ter feito uma moeda com o seu perfil cravado nela, no país Urartus, que é a terra do ferro, da prata e do cobre. Desejaria esculpir seu nome numa tábua, como aquelas carregadas no pescoço como talismã contra o azar, pelo povo de Urartus. Gostaria de dar para você tudo o que eu possuo, como esse povo fazia, oferecendo tudo para o deus da guerra Haldi...
* Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba.

mockup