Se eu encontrasse você viva, nas ruínas, depois de um grande terremoto, quando suas mãos tocassem as minhas, teria sentido todos os sofrimentos da vida e, ao mesmo tempo, todas as alegrias. Depois choraria durante horas, olhando para a cidade que parecia um filhote morto de gaivota. Se eu tivesse sete vidas, sem pensar, as daria para ressurreição de sete pessoas que morreram lá.
Durante dias e noites queria andar sem saber para onde estou indo. Um dia chegaria até Persépolis, Irã, e lá procuraria por você. Com um cavalo iria até você, assim como o Persa Darius, o rei dos reis, que depois de perder a batalha contra o rei da Macedônia, Alexandre "O Grande", foi para Índia, com sua honra. Darius, na solidão, lembrou que antes as pessoas gritavam quando o avistavam: "Oi Rei Darius, viva!", e pensou que a vida é frágil e sem significado. Sempre queremos andar com os cavalos e acompanhar os ganhadores! Porém, prefiro andar com o cavalo acompanhando Darius, o perdedor, mas que ainda mantém sua honra. Desejaria compartilhar a tristeza dele, e na sua companhia andaria até o país mágico, quem sabe fosse possível te encontrar por lá. Queria falar para Darius o seguinte: Oi grande rei! Nada existe de tão profundo nesse mundo que possa ser comparado com a cova da tristeza existente dentro de um perdedor. E quem saiu dessa cova, depois de cair, é duas vezes mais humano. É o mais puro humano.
Se eu tivesse vivido com você no Palácio que pertencia a Ishak Pasa, e que era invejado pelo Sultão, de lá assistiríamos as caravanas da rota da Seda passarem. Depois olharíamos para a montanha Ararat, que escondeu a Arca de Noé, e procuraríamos pela Arca andando em cima das neves azuis. Se um dia finalmente a encontrássemos, desejaríamos, em segredo, completar nossas vidas vivendo dentro dela.
Queria viver com você numa margem do lago Lut, conhecido como um lugar amaldiçoado por Deus, na cidade de Sodoma ou Gomorra. Um dia o céu estava vomitando fogo... Se tivesse fugido com você da morte que ameaçava, batendo na nossa porta, você teria ficado como a esposa de Lut que, enquanto fugia, olhava para trás e por isso tornou-se uma estátua de sal. Se eu tivesse visto você ali, parada, olharia desesperado para todos os lados da Jordânia e me atiraria nas águas muito azuis e profundas do lago de Lut.
Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba.

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