Não tenho o hábito de ficar, como dizem, navegando na internet. Mas, como tinha que ficar por mais de quatro horas no aeroporto, resolvi dividir o tempo entre a leitura e a "navegação". Descubro então, através do computador, que Valêncio Xavier havia acabado de nos deixar.
No último sábado, fui me despedir dele. Depois, fui para casa e, sem nenhuma decisão racional ou pretensão, fui diretamente à biblioteca procurar os livros que tenho e que foram escritos pelo Valêncio. Confesso: não tenho muitos, só cinco. E - coisa rara- , li todos.
Ao folheá-los, constatei que, em dois deles, há dedicatórias. No livro "a propósito de figurinhas", lá está: "Pro querido amigo Rosinha com todo o carinho do Valêncio Xavier, 86". Li, reli a dedicatória e comecei a folhear o livro. Isto possibilitou-me uma suspeita: a de que o Valêncio foi morar na lua.
Conheci o Valêncio na década de 1970, quando comecei a frequentar a Cinemateca de Curitiba, ainda na ditadura. Naquela época, não precisava ser de esquerda para ser excluído, bastava pensar, e Valêncio era um pensador.
Com suas idéias, ele arrastava muitos de nós, principalmente os iniciantes, e eu era um deles. Iniciante em quase tudo e ignorante em cinema. O Valêncio foi um dos que me ajudaram a ver o cinema como arte, cultura e instrumento de reflexão.
Todos que conviveram com o Valêncio têm histórias para contar. Creio que a melhor homenagem que posso dar a ele é contar um pouco do nosso convívio. Aproveito e lamento que tenha sido pouco, pois ao entrar para a vida pública, acabei me afastando, por excesso de trabalho, de muitos amigos.
Quando o Homero Teixeira de Carvalho (Catadores de papel) casou-se, apesar da sua contrariedade, fez como todo noivo: comprou roupa e sapatos novos. Dias depois do casamento, ele vendeu os sapatos para o Valêncio.
Agora, de sapato novo, o Valêncio (ele nos disse isso) comprou um terno. Disse que estava preocupado: poderia morrer e não tinha roupa adequada para ser enterrado. Isso aconteceu na década de 1970.
Quando me formei médico, em 1976, o Valêncio, junto com a Ana, sua filha, apareceu lá em casa com um pacote de presente: era um estetoscópio de plástico, brinquedo feito pela fábrica Estrela. Não sei onde foi parar, mas hoje não uso estetoscópio nem de brinquedo.
Neste convívio, cheguei inclusive a ser um figurante no curta-metragem "Caro Signore Feline" (Carta a Feline), de 1980, que venceu o prêmio de melhor filme de ficção na 9ª Jornada Brasileira de Curtas-Metragens.
O Valêncio foi morar na lua, e foi sem terno e gravata. A suspeita que foi para lua está no seu "a propósito de figurinhas, nº 127 - NA LUA":
Mais para frente pensava
Tudo ia melhorar. Mais que nada!
Pensava em sentar na perna da Lua
Balançando as pernas no ar
Danou-se! O redondo da Lua é igual ao de cá
Não tem onde se agarrar
Quem quiser vive pendurado, lá também viverá
Seja lá onde for
O que lá estará é igual ao que cá está.
Este é o meu "até já" para o Valêncio Xavier, que foi pra lua, sem terno e não reparei se estava descalço ou de sapato novo.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e presidente do Parlamento do Mercosul.

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