EXPRESSO
O sitiante sempre fez de tudo um pouco para sobreviver. Plantava de tudo, e criava vários animais. Eram homens e mulheres sem preguiça. A maioria dos produtos consumidos como alimento era produzido no próprio sítio. O excedente, vendido para comprar roupa, calçados, sal, remédios, coisas que não se produz no sítio.
Meu pai e meu tio inclusive criavam abelhas para delas tirar o mel. Não usavam nenhuma roupa especial: iam de manga de camisa, apenas fazendo um pouco de fumaça. Meu primo e eu, crianças, vendo o método de coletar os enxames, achamos que poderíamos fazer o mesmo.
Um dia, descobrimos um enxame num abacateiro. Fomos os dois, pegamos uma caixa de madeira, dessas que vinham com sabão, passamos erva cidreira com açúcar para deixar um pouco cheirosa e atraente, e fomos coletar o enxame. Subi no abacateiro. Ele ficou embaixo, com a caixa. Chacoalhei o galho. Metade do enxame caiu sobre ele, e metade voltou-se contra mim.
Nunca desci tão rápido de uma árvore como naquele dia. Saímos os dois correndo pelo pasto. Quando chegamos em casa, estávamos todos picados, vermelhos e começando a inchar.
Conto este episódio porque dias atrás li que as abelhas, que eram tantas e de tantas raças e espécies, estão acabando no Brasil. Informa o jornalista Marco Aurélio Weisheimer, da Agência Carta Maior, que os "apicultores gaúchos e catarinenses relatam desaparecimento de abelhas em níveis inéditos". Já registram uma queda na produção de mel de até 25%.
Voltando ao sítio. Lá, havia duas pequenas árvores da mesma espécie. Diziam os mais velhos que eram o marmelo do campo. As duas floravam, porém só uma dava frutos. Também existiam alguns pés de mamões que, apesar de florarem, não davam frutos.
Meu nonno, de origem italiana, teimoso, mandou derrubar o pé de marmelo que não dava frutos. A outra árvore passou também a não dar - e não era por vingança. É que uma árvore era macho e a outra, fêmea, só dava frutos porque era polinizada pelo vento ou pelas abelhas. Fiquei sabendo disso anos depois.
Com a diminuição das abelhas, não diminui só a produção de mel, mas também a polinização e, conseqüentemente, a produção de alimentos. As abelhas são responsáveis por mais de 90% da polinização e, de forma direta ou indireta, por 65% da produção dos alimentos consumidos.
Marco Aurélio lembra em seu texto que o físico Albert Einstein disse que, se as abelhas desaparecerem, a humanidade seguirá o mesmo rumo em um período de 4 anos, por uma razão muito simples: sem abelhas não há polinização, e sem polinização não há alimentos.
A razão para o desaparecimento de abelhas não se conhece. Há apenas suspeitas. Entre as possíveis causas estão os transgênicos, principalmente o milho Bt, a radiação de telefones celulares e o uso indiscriminado de herbicidas.
Não são só as abelhas que estão desaparecendo. Observei que o número de borboletas também está diminuindo. Onde andam as belas borboletas das quais inconscientemente, na infância, corríamos atrás?
Dr. Rosinha, médico, é deputado federal (PT-PR) e presidente do Parlamento do Mercosul.





