Beira de estrada
Nossa língua é rica e interessante. Porém, mais significativo é o uso feito dela pelos brasileiros para definir o que querem comunicar, obter ou mesmo vender.
Há aqueles que, para vender suas mercadorias e produtos, chegam a causar horror a marqueteiros. Próximo à cidade de Guarapuava, havia a Churrascaria do Marcão, e seu slogan era mais ou menos o seguinte: "Sinta na carne os exageros do Marcão".
O restaurante não existe mais. Será que é por que o Marcão exagerou ao tocar na carne, alguns não gostaram, protestaram e o restaurante faliu? Ou será que gostaram, voltaram e deram lucro ao Marcão, permitindo-lhe um bom negócio ao vender o restaurante?
Passei semanas atrás pelo Turvo e, na beira da estrada, havia uma faixa convidando para um "jantar ecológico". Enchi-me de dúvidas. O jantar é ecológico por que a comida é vegetariana e sem agrotóxico? Ou por que, para poupar as plantas, come-se somente carnes? Ou por que o material que serve o jantar é todo biodegradável? Ou por que o jantar, independente da comida, é feito no meio de um agradável bosque com verde por todos os lados e cantar de pássaros?
Não recordo o nome do motel, mas no caminho de Curitiba para a Lapa há um que tem, segundo a placa em frente, "cartão fidelidade". Sei que já virou moda as lojas oferecerem cartões desse tipo. Depois de uma certa quantidade de pontos, oferecem um prêmio. Mas o que significa um cartão fidelidade de um motel?
Imagino eu, e assim seria o correto, que o cartão seja oferecido para os casais "fiéis" ao motel e, também, entre si. A dúvida que me dá é a seguinte: como são contados os pontos? Se cada vez que as pessoas comparecem ao motel, ou se cada vez que os casais comparecem juntos? Tanto em um caso como no outro, ao atingir o número de pontos, qual seria o prêmio?
Continuando na viagem, no município de Pinhão tem um estabelecimento chamado "Xarope". À primeira vista, dá-se a impressão de se tratar de uma farmácia, mas passando pela estrada o aspecto é mais compatível com a de um bar, ou uma casa de secos e molhados.
Mas por que o nome "Xarope"? Será que Xarope é o próprio proprietário? Ou é a marca de alguma bebida fabricada localmente?
Em Laranjeiras do Sul, havia uma faixa anunciando "a noite do encontro com Deus". E, passando por Cantagalo, a traseira de um fusca afirmava que prefere chegar "atrasado" neste mundo, para não chegar "adiantado" no outro. Imaginei que o cidadão, dono do fusca, não quer ir à noite do encontro com Deus. Tampouco eu.
Na BR 116, perto de Curitiba, existe uma borracharia que pôs o conserto de pneus em promoção. Será que alguém sairia de longe para ir até a borracharia só para consertar o pneu? Ou será que alguém furaria o pneu do seu carro só para aproveitar a promoção?
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e presidente do Parlamento do Mercosul


O Desejo Eterno
Se eu tivesse desejado encontrar você no mesmo lugar que o rei Antiokhos, da civilização Commagene, encontrava com os deuses para se saudarem, eu teria tocado suas mãos. De tanto amor, meu sangue corria como um cavalo veloz e meu corpo tremia dos pés à cabeça. Eu poderia ter saltado do ponto mais alto do vale indulgente, grande e protetor da Mesopotâmia, suavemente...
Se eu tivesse sido um amante corajoso como foi a Imperatriz Bizantina Teodora, conhecida como "A Mão cruel da morte", teria feito todos se curvarem diante de você, sem questionamentos, como se curvavam diante dela. Se eu estivesse em Constantinopla quando ocorreu o enorme incêndio, teria entrado nele distraidamente, pensando em você, e não sentiria dor alguma, todo meu corpo queimaria com felicidade.
Do Castelo dos Cavaleiros até o rio Orontes, e do rio até Damasco eu poderia ter andado como um dervixe, apoiando-me num cajado e trajando roupa simples, teria rastejado até você... A despeito do sol forte, eu veria seu rosto nele, e por causa dessa visão continuaria o caminho, persistente, com uma fé inabalável, até o Golfo Aqaba da Jordânia. Queria que sua voz viesse carregada pelas águas do riacho Styx da terra dos mortos até mim! Assim como acreditavam os humanos primitivos, esse riacho trazia vozes do além... Suas águas brotam do fundo das cavernas Inferno e Paraíso, na cidade de Silifke, no lado mediterrâneo da Turquia. Se, sem piscar meus olhos, eu tivesse me jogado na cova da caverna Inferno, da altura de 128 metros, poderia ter aguardado por você até o infinito. Ainda esperando sua aparição, queria ter assistido as danças mágicas das três bonitas Aglaia, Thalia e Euphrosyne.
Queria ser um dos trabalhadores que construíram o Muro da China que foi erguido com os ossos dos corpos deles. O muro que subiu através dessa carga pesada e trágica é honrado. Se um dia eu e você tivéssemos sido enterrados na fundação do Muro, teríamos escutado as pessoas quem andavam acima de nós para sempre. Se nós tivéssemos ficado lá, teríamos alcançado um sossego profundo e, no fundo do muro, saberíamos de um amor que estava ali enterrado, na fundação do Muro da China, e isso seria a coisa mais eterna do mundo.
Se nós tivéssemos nos escondido no Cavalo de Tróia, teríamos feito ali um lugar sagrado para o nosso amor. Ainda que tivesse sido necessário lutar com os exércitos para defender o nosso abrigo, eu teria resistido até a última gota do meu sangue.
Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba

mockup