EXPRESSO
O carro estava parado no cruzamento e atrapalhava a passagem. Benedita olhou. Olhou rápido. Um olhar desses superficiais e objetivos. Dos que medem distâncias, observam as placas preferenciais, desses olhares rápidos que funcionam associados a outros sentidos. Um olhar do tipo que se olha (e ao mesmo tempo se escuta) para ver se a chaleira ferve. Ao dar-se conta que podia passar pelo veículo ao mesmo tempo em que seguiria para atravessar a rua, ela o fez. Continuou a mover-se. Tão logo que chegou ao outro lado tratou de apoiar sua bicicleta no muro.
Benedita acredita em muitas coisas e fala delas sempre que tem oportunidade. Acredita que sonhar é um benefício que todos recebem nesta vida, ainda que a maioria das pessoas só se dê conta disso quando - em termos práticos - o sonho se torna muito difícil de ser realizado. Quando fala sobre isso sempre usa como exemplo o caso de sua amiga de infância, Suzana. As duas cursaram juntas o primário. Diariamente seguiam até a escola uma em companhia da outra. Na caminhada, que durava cerca de 45 minutos, cantavam suas cantigas preferidas e faziam comentários sobre coisas simples como o que fariam com o tempo que sobraria caso tivessem bicicletas para as levar até a escola. Embora não possuíssem cronômetros eram inteligentes o suficiente para perceber que seus pés nunca seriam capazes de levá-las tão rapidamente como as bicicletas o faziam com seus colegas. Alguns chegavam a ter seus cabelos levantados pelo vento mesmo se não houvesse vento.
O quarto ano primário era o grau máximo de instrução que se podia ter acesso na vila. Assim, Suzana, seguindo a vontade da mãe (católica devota), foi para o convento enquanto Benedita permaneceu ali. Anos atrás Suzana, que passou a ser Valdete, ficou muito doente e Benedita foi visitar a amiga de infância. Conversaram durante horas. O medo de deixar a vida era nítido nos olhos de
Valdete. Ela sabia que estava a morrer e assim que a palavra morte fez-se presente na conversa pôs-se a falar sobre sonhos. Benedita pensou calada. Dentro dela as palavras juntavam-se procurando organizar-se de modo que pudessem explicar porque só agora a amiga falava dos sonhos de Suzana. O mais lógico seria falar da morte já que era ela que estava a chegar. Falar de sonhos parecia inapropriado e nada prático. Os sonhos da amiga estavam atrasados. Fisiologicamente atrasados. Não que os sonhos tenham hora para chegar, mas existem casos em que a sua partida é tão certa quanto era a de Valdete, já que a de Suzana já tinha chegado há muito tempo. Benedita não precisou esforçar-se para sorrir enquanto ouvia a amiga. Sorria e pensava na diferença entre os seus sonhos e os dela. Era fato que tudo o que a amiga poderia fazer era sonhar mais um pouco no tempo que lhe restava acordada, ao passo que
Benedita ainda poderia usufruir - se a vida assim o permitisse - tantos dos sonhos em que se sonha acordada como daqueles quando se está dormindo.
Mesmo tendo uma bicicleta, Benedita, agora aos 57 anos, continua a pensar o que faria com o tempo que sobraria caso conseguisse realizar com mais rapidez suas atividades. Ao longo de sua vida fez muitos testes e descobriu que algumas coisas precisam de cuidado, outras de paciência e a grande maioria delas, de objetividade e precisão. Os objetos que fazem parte da vida de Benedita são em maior número do que as pessoas. E com eles ela se esforça em ser objetiva e precisa. Aprende isso diariamente. Sua bicicleta parece nova, embora tenha sido comprada há um bom par de anos. Benedita a deixou encostada no muro para poder discar com uma mão enquanto a outra segura o telefone próximo de seu ouvido. Ela sabe que não se trata de uma obsessão ou de um caso de hiperatividade. Empenha-se em fazer as coisas de maneira rápida não porque não gosta das coisas que faz, mas porque um dia após outro ela sente a diferença entre o tempo das pessoas e o tempo dos objetos. As pessoas vão. Os objetos ficam. Benedita deseja que o tempo sobre.
Maria A. Andrade, designer





