EXPRESSO
O mundo está salvo
Nem tudo são pedras e espinhos no caminho tortuoso que o novo presidente americano terá de traçar para conciliar sua proposta de mudança com a realidade de um mundo em crise. Nem tudo são obstáculos nos planos dos principais líderes europeus, empenhados em, ao mesmo tempo, preservar um estado de bem-estar social com a necessidade de adaptar um projeto estratégico comum a uma economia em turbulência. Nem tudo são preocupações para os países em desenvolvimento, atirados em meio a um redemoinho de problemas criados por uma conjuntura que não governam nem criaram, em meio à qual tentam administrar suas tremendas contradições sociais. Nem tudo são incertezas para empresários e empreendedores, desnorteados pelo horizonte de perspectivas que desconhecem e realidades que não conseguem antecipar ou projetar. Nem tudo é insegurança para quem trabalha e produz sem o confortável guarda-chuva protetor do Estado, que imuniza apenas aqueles que sob sua influência orbitam.
Não, senhoras, senhores, países, empresários, trabalhadores, homens e mulheres, jovens e crianças, não há motivo algum para pânico, angústia e incerteza. Não há porque temer o que vem aí pela frente, nem o que está por trás do novo tempo em que adentramos. Nenhum medo mais precisa ser administrado, nenhuma esperança precisa ser construída, pois o condutor de destinos, o Napoleão da liberdade, o augusto defensor dos pobres e da Carta de Puebla acaba de retornar de seu tour de Dubai, de seu périplo pelo oriente, com a poção milagrosa capaz de reverter o que parecia irreversível, de curar o que parecia incurável, de tratar o que parecia intratável. Sim, acalmem-se, acomodem-se, reconciliem-se, pois o diagnóstico está dado, a palavra profética foi enunciada e os horizontes foram desanuviados naquela manhã gloriosa de 11 de novembro, quando, no auditório lotado da Escolinha de Governo, sua excelência definiu com clareza nostradâmica a dimensão do momento que vivemos, e localizou o inimigo público número um de toda conspiração mundial contra " as pessoas". Sim, quem senão ele, esse monstro vilipendiador chamado de neoliberalismo, esse atroz destruidor das causas nobres, essa besta apocalíptica ao qual foi entregue o nosso destino, o destino do mundo, e a quem nosso herói hercúleo promete nada mais, nada menos, do que a consumação final. Sim, Obama, pode relaxar e gozar, como disse nossa ministra. Sim, Gordon Brown, sim, Sarkozy, sim, países emergentes e submergentes, vem aí o Consenso de Curitiba, onde as maiores sumidades do mundo novo em construção se darão as mãos e sairão pelos campos floridos para contar de um novo tempo que vai nascer, de uma nova esperança que vai florir. É chegada a hora, irmãos. Abraçem-se e entoem um cântico de louvor àquele que retorna de tão longe com a verdade nas palavras e a certeza no coração.
Antônio Cescatto, de Curitiba.
Todo mundo tem que possuir sua própria parede
Temos que pensar nos nossos relacionamentos como se fossem organismos vivos. Se uma flor secou, um humano morreu, ou uma folha apodreceu é impossível devolvê-los para a vida. Os relacionamentos são assim também, quando um relacionamento termina reconstrui-lo é extremamente difícil porque já machucou os envolvidos demais.
Algumas pessoas fazem certas coisas nos seus relacionamentos sem prestar atenção, displicentemente e até com falta de educação. Logo depois, esfria o afeto que existia entre os envolvidos, o relacionamento estraga. Um tempo depois a pessoa que se comportou negativamente, como se não tivesse feito nada de mal, quer que o relacionamento continue como era antes. Essa pessoa não faz uma crítica própria, nem assume possíveis falhas, e quer apenas continuar relacionando-se sem pensar nas suas faltas, no mesmo tipo de relacionamento que mantinha anteriormente. Um dos meus amigos diz o seguinte: "minha vida não é como um hotel que as pessoas quando querem entram e quando querem saem, não é fácil entrar."
Eu prestei atenção nos últimos tempos no fato das pessoas encontrarem-se e passarem umas pelas outras fingindo que não se viram, só se não tiverem tempo hábil para escapar do inevitável encontro face à face, conversam falsamente, cumprimentando-se.
Se nosso relacionamento com alguém está estragado, sabemos que também acabou nosso relacionamento com o melhor amigo dele.
Porque as pessoas frequentam psicólogos? Eu penso que às vezes não querem solução, querem ser escutados e compreendidos sem serem vítimas de preconceitos. O psicólogo irá escutá-los, mesmo que eles não procurem solução. A solução é essa, uma pessoa escutá-los. A maior parte do tempo não precisam fazer comentários sobre as situações que vivenciam.
Temos que construir nossa parede para podermos nos recostar nela. Temos que construir essa parede muito firme, com ladrilhos que sejam carregados com nosso esforço.
Ao relacionar-se, muitas vezes, uma pessoa se encosta numa outra com todo o seu peso e a outra pessoa o carrega, como se fosse sua carga, sem reclamar. Às vezes, as pessoas precisam disso para pegar o poder do outro, suportar a vida, mas com a continuidade chega o cansaço e o carregador da carga se esgotará. Então, ele sairá e largará o fardo, irá para outro lado. Quem estava encostado cairá no chão, porque ele pensa que seus amigos são uma parede na qual podem recostar-se para sempre. Por isso, ele mesmo não possui uma parede própria para se recostar. Até a eternidade ele acreditava que seu amigo teria que carregá-lo. Todo mundo tem que possuir sua própria parede.
Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba





