EXPRESSO
Tchecov sabia de tudo. Em um texto chamado A Vida é Bela, ele nos ensina que uma das belezas da vida é entender, sempre que passamos por um momento histórico ou pessoal complicado, que poderia haver uma situação bem pior. Se considerarmos, por exemplo, o cenário desolador com que nos acenam todos os economistas e especialistas mundiais, nas últimas semanas, podemos, como consolo, nos lembrar da situação dos primeiros imigrantes ingleses que desembarcaram na costa norte do novo mundo, ali por 1620.
Na guerra civil que devastara a Inglaterra nesse periodo, eles haviam sido, ao mesmo tempo, os grandes vencedores e os grandes perdedores. Vencedores porque, ao contrário do que a palavra puritano hoje nos faz supor, eles representavam, nesse tempo, o elemento revolucionário, com suas aspirações de mais liberdade e menos regulação monárquica. Foi graças a luta sem tréguas de alguns deles que a Inglaterra conquistou mediações democráticas que lhe permitiram viver esse incrível situação de uma monarquia viva com um sistema parlamentar exemplar (Gordon Brown não teria agido de forma tão eficiente na crise atual sem isso). Mas também foram perdedores porque sofreram, mais do que quaisquer outros, as conseqüências da violenta reação que desabou sobre os opositores a partir da vitória do novo monarca.
Responsabilizados pela baderna, acusados de todo tipo de vileza, foram, ou condenados à forca, ou gentilmente convidados a imigrar para uma terra distante, onde poderiam organizar à vontade a sua tão propalada utopia reformista. Ao chegarem, eles desembarcaram na costa do que mais tarde se costumou chamar de Nova Inglaterra, a região mais ao norte do pais do norte, a mais escarpada e rigorosa de toda a costa leste, deparando-se, conforme nos relatam os anais dos imigrantes da Virgínia, citados por Tocqueville, no fabuloso Democracia na América, com uma perspectiva nada animadora:
Depois de cruzar um vasto oceano e chegar ao fim de uma longa viagem, eles viram que não havia nem um amigo para recebê-los, nem um telhado para abrigá-los. Era o meio do inverno. E sabem todos que conhecem o nosso clima, do rigor desse inverno e da fúria das tempestades que varrem as nossas costas. Não se recomenda a ninguém, durante esse período, qualquer tipo de viagem, mesmo por lugares conhecidos; imagina-se, então, a dificuldade para instalar-se nas praias recém-descobertas. Ao redor delas, nada havia para ser visto, só a vastidão tenebrosa e desolada, repleta de animais e homens selvagens, cujo número e ferocidade eles não seriam capazes de mesurar. O chão congelava. A terra, coberta de florestas e arbustos, tinha um aspecto bárbaro. Atrás deles, o vasto oceano separava-os do mundo civilizado. Que algum tipo de paz e esperança pudesse haver aqui, era algo que só vislumbravam de uma forma: olhando para o alto.
Da nossa confortável perspectiva histórica, é fácil olhar para fatos como estes e, depois de puxar a pipa imaginaria, a pipa de Corbiére, concluir sabiamente que a relação direta com a deidade foi a grande responsável pela criação de uma civilização democrática de dar inveja aos gregos, como faz nosso querido Tocqueville. Mas nada substitui o pânico primordial que assolou os avós puritanos dos nossos amigos do norte. Aquilo foi assustador. Sem teto e sem amigos, tiveram que agarrar-se ao que havia: sua família, seus filhos, seu clã, seus companheiros de jornada e abraçar-se contra os ursos, os índios e as tempestades.
Não somos puritanos. Mas somos todos, americanos ou brasileiros, europeus ou iranianos, seus herdeiros. Acreditamos, de um jeito ou de outro, na tal liberdade. Não queremos mais ninguém nos tutelando, regulando, controlando. Sabemos, no entanto, que a grande Las Vegas desmoronou, com seus Bart Simpsons cínicos e debochados; a Las Vegas globalizada em que todos, de repente, se tornaram acionistas, mesmo que com um dinheirinho que não merecia mais do que uma reles poupança. Como eles, estamos hoje diante do mesmo mundo novo e assustador. Como iremos voltar, se há um oceano a nos separar do passado? Como iremos adiante se não sabemos o que nos aguarda na floresta impenetrável? Como ergueremos nossas moradas (e a metáfora sub-prime, juro, foi um acidente), com esse mar violento a ameaçar nossas praias?
Falam-nos das marolas e da muralha que foi erguida no Brasil contra essas ondas, mas sabemos todos, no fundo, que não passa de um subterfúgio retórico, uma soberba ingênua e paternalista. Nos tornamos adultos com anos a fio de totalitarismo, amadurecemos com as trapaças e a miséria que nos encara todos os dias nas ruas, fazendo-nos entender onde está o verdadeiro risco Brasil.
Temos, porém, uma diferença com os nossos ancestrais yankees: olhar para o alto, para nós, já não é mais consolo, não nos indica mais um caminho ou uma solução. Cem anos de idéias freudianas, duas grandes guerras, gulags e outras atrocidades depois, se olhamos para cima o máximo que nos acontece é uma vertigem. Então, olhar para onde?
A solução talvez seja olhar para dentro, esse lugar tão desconhecido. Ou quem sabe para o lado (não confundir com esquerda ou direita) e, abandonando nossas grandes platitudes, encararmos a vida diária e cotidiana com seu grande encanto, vivendo nosso pequeno jardim como o grande mundo que é, mas que nós, imersos em nosso egoísmo platônico, insistimos em trocar por sabe-se lá que grandes ambições e sonhos.
Ou ler Tchecov. Ele deve ter uma resposta.
Antônio Cescatto, publicitário.





