EXPRESSO
Na mão deste personagem
há uma flor, não,
uma espada, não,
há uma caneta,
uma caneta
de tinta branca
Imaginação imagine morte. Coisa difícil, vamos tentar, isso, vamos tentar, vamos tentar conseguir. Há um personagem, olhos brancos, pernas cruzadas sobre o sofá de couro branco, a mente uma confusão de linhas, sons, formas geométricas bi e tridimensionais ricocheteando nas paredes do crânio, deslizando agora para baixo, a coluna um tubo de fios muito importantes, para baixo, curvando-se para dentro, para baixo e para dentro, imagine. Na mão deste personagem há uma flor, não, uma espada, não, há uma caneta, uma caneta de tinta branca cuja ponta o personagem sabe-se lá por quê dá de friccionar contra o papel, também ele branco, com toda a força, como que querendo rasgá-lo, nunca o rasgando, talvez mero reumatismo, talvez raiva contra o que quer que seja que você queira imaginar, imagine, imagine. As dimensões da sala é uma sala, as paredes brancas, é uma sala branca a luz branca fluorescente no teto, as suas dimensões incalculáveis posto que os olhos cegos, a cabeça que deveria rodar só para fazer alguma coisa e não ter de dizer, dizer o quê, que está vaga, não está vaga, mas há vagas para a noite, o que dizer, o que fazer, o que dizer, não se sabe. Muito já foi dito por ora, passemos à segunda sala.
Toque a sineta, o homem gordo camisa aberta umbigo encobrindo a fivela do cinto vem dizer que não há nada que se possa fazer. Imagine este quarto branco num hotel, não, imagine-o à beira da estrada, num motel, numa hora tenebrosa da noite, digamos quatro da manhã. O homem gordo toca a sineta, ato contínuo o placar luminoso apaga, não há mais vagas, lá fora um motorista desapontado olha para baixo, para os pés tacopino acelerador-embreagem-freio contemplando o suicídio mas se contentando com um pedaço amanhecido de pão-de-posto-de-gasolina-de-beira-de-estrada, por enquanto, por enquanto é isso. Imagine morte, sempre, mas a morte passa ao largo. Dentro da sala branca o homem de olhos brancos quebra com a ajuda das próprias mãos brancas a caneta de tinta branca em duas partes, impossível precisar com clareza, uma mais comprida que a outra, ambas afiadas e capazes de perfurar o seu coração, isto é, se você tivesse um e não fosse pelo contrário uma besta faminta devoradora de . O homem gordo espera pacientemente pelo balconista, acende um cigarro enquanto espera, fuma-o, olha-se no espelho e diz, Fazer o quê, eu sou gordo, eu estou fumando, eu estou esperando pelo maldito recepcionista que deve a essa altura estar lá dentro com uma revista pornô repousada sobre as coxas semi-abertas, olhos voltados para baixo, meio-sorriso no rosto repleto de marcas de varíola, grunhindo baixinho, bem baixinho, a seguinte prece-de-beira-de-estrada, Não há vagas, queira por favor se retirar, o cliente tem sempre razão, este copo é de brinde, e o próximo, bem, o próximo, imaginação morta, imagine. Longe como vinda do inferno a voz de um cachorro, não, de vários, unidas num coro lúgubre em celebração às quatro horas da manhã, atravessam as rachaduras nas paredes e os vidros muito finos, entrelaçam-se, cantam Imaginação morta, imagine, é preciso. O homem na sala branca está cansado, está acordado, rende-se ao sono, mas o sono passa ao largo, está sedento, rende-se à bebida, mas a bebida passa ao largo, está cansado, rende-se ao reumatismo, mas o reumatismo passa ao largo, e assim por diante, rentes às paredes brancas, no teto uma larva branca dormindo. Há uma falta generalizada de vagas, os quartos estão por assim dizer lotados, se é que você me entende, diz o recepcionista, mas diz de si para si, lá dentro, de modo que o homem gordo, não o ouvindo, bate enfurecido contra o balcão de mogno muito velho e escuro cheio de mofo por dentro das gavetas que guardam insuspeitadamente pacotes de cocaína e cigarros de maconha, tudo somando mais ou menos, à época desta narrativa, cento e setenta e dois reais do bolso de quem quiser saber, se você quer saber. Mas o recepcionista faz também varejo, e, imagine, é barateiro, e a tal ponto que
E assim por diante, assim por diante, imagine, para sempre.
Tiago Lima, estudante de direito





