EXPRESSO
Não, a nossa decisão não é negociável
Danilo: Eu vou ser bem franco com o senhor, senhor (conteúdo suprimido). Sente-se, por favor. O senhor está despedido. Sim, de fato, despedido. Não, a nossa decisão não é negociável entenda, por favor em hipótese alguma, sob quaisquer termos. Escute. Por favor, sente-se e escute.
Não foi uma decisão imponderada. Estamos cientes dos benefícios que os seus trabalhos nos trouxeram. Sem dúvida, foram trabalhos muito bem trabalhados. Eu não faria melhor. Aquele prédio de vidro, Deus!, um dos meus favoritos de todos os tempos. E eu sou conhecido por ser um homem de gosto ha ha. Queira sentar-se, senhor (conteúdo suprimido), por favor. Eu insisto. Vem-me à memória, no momento, aquele boto lembra-se do boto? De que cor mesmo era ele? Aí também, o senhor foi ótimo!
De alguns meses para cá, entretanto, vimo-nos obrigados a refazer as contas. Pagar alguns impostos. Reduzir as despesas. O senhor entende o que isso significa, não entende. É claro que entende. Digamos, para todos os efeitos, que a nossa situação não poderia piorar ha ha.
O senhor não será, de maneira alguma, o único afetado. Pergunte para a (conteúdo suprimido). Refiro-me, é claro, à sua esposa. Ela esteve aqui conosco há alguns minutos. Senhora simpaticíssima, vestido longo roxo, muito bom gosto. Sim.
A nossa decisão é baseada em muitos fatores! Sim, de fato, muitos, diversos, coloque-se como quiser, não nos importa, sim, de fato.
Qual é a sua atitude relativa a isso?
Osvaldo: Pois bem, estou despedido. Que seja da minha sorte aquilo que os deuses quiserem, se quiserem, quando quiserem. A ninguém e a nada tenho de prestar contas, as suas contas imundas. Espero apenas que você saiba no que está se metendo. E com quem. A guisa de esclarecimento, acho por bem trazer a questão à tona.
O prédio de vidro e o boto cor-de-rosa, diga-se a que você tão livremente alude não são, nem de longe, exemplos dignos dos meus trabalhos mais antigos aqui na empresa. Construí pontes para os desapontados, chutei os nossos inimigos bem onde mais lhes doía e inúmeras vezes, atravessando noites tempestuosas na companhia exclusiva do meu cachorro, inscrevi no caderninho vermelho números que não correspondiam de todo à realidade, Deus sabe com que pesar. Pergunte ao seu chefe, o (conteúdo suprimido). Sob ordens de alguém mais competente que você, logrei manter a empresa a salvo durante períodos de turbulências terríveis, e isso antes mesmo de você ter nascido.
A dinamite era a minha ferramenta de trabalho. A camaradagem, a honra e a honestidade, as águas de que eu bebia com a sobremesa. Conheciam-me pelo apelido de Dínamo. Meio envergonhado, confesso que gostava disso.
Quantos anos você pensa que tem, quem você pensa que é, com que autoridade e conferida por quem seguramente menos competente do que eu mesmo, que coloquei, no outono de 1958, esta porra de empresa no mapa, aperta agora o botão dos seguranças?
Pois bem, estou despedido. Os seguranças estão a caminho. Saberei me conformar à vida que nunca tive. Hei de me retirar do seu escritório antes que eles cheguem. Não sairei daqui à força, não lhe darei este prazer. Na minha idade, isso poderia resultar numa bacia quebrada. Apenas espero que você saiba com quem está se metendo.
A minha vingança constituirá material para um sem-número de histórias macabras lendas urbanas é a terminologia moderna. Pena que você estará morto demais para negá-las. Da minha parte, deixarei a palavra se espalhar aos quatro ventos.
Faço notar, a guisa de esclarecimento, que a minha esposa partiu para não voltar mais em 1974. A senhora a que você se refere não é, portanto, esposa minha, embora possa ser de outro, se assim for da sua vontade.
Saio daqui com dignidade. Sem mais, adeus.
Tiago Lima, estudante de Direito





