EXPRESSO
Pisei
na
água,
era água
do mar
Fazia noite. Densa. De forma que eu não enxergava. Andava na rua, entretanto, guiado pela cabeça brilhante de um homem. Ele parecia se aproximar. Ou era eu que me aproximava dele, por sua vez estático. Não sei, visto que eu não tinha pontos de referência de que me valer para constatar o fato com certeza. Eu não parei de andar, isso teria ajudado, mas não pensei em parar de andar. Não era o caso, eu estava atrasado. E era grato ao homem-guia, de quem parecia me aproximar cada vez mais. Ao seu redor fazia igualmente escuro, de forma que eu não via o meu caminho, senão o ponto luminoso ao qual devia chegar. O seu corpo parecia ser a única coisa que a cabeça iluminava. Fiando-me em que devia ser um homem bondoso como qualquer outro, naquela época eu era ingênuo, eu me sentia grato ao homem. Levei a mão aos bolsos, pensando em acender um cigarro. Pensei que não tinha cigarros. E de fato não tinha, como pude verificar. Então me agachei, coloquei as mãos no asfalto áspero, tateando por uma bituca qualquer. Encontrei vários objetos que me apressei em levar ao bolso - primeiro um, depois outro, e outro. Assim enchi os meus bolsos todos, muitos, de objetos cujo formato, textura e tamanho me lembravam, às apalpadelas, os de uma bituca de cigarro. Que são a principal causa de poluição das nossas praias. E eu estava na praia, percorrendo uma rua à beira-mar. Escutava as ondas. De forma que me sujei inteiro de areia no processo de apanhar as supostas bitucas, e além disso, para o meu pesar, colhi muitas conchas em formato cilíndrico, cuja existência até então eu ignorara. Bem, se não conseguira uma bituca, pelo menos aprendera alguma coisa. E não era certo que eu não havia conseguido, oh não, faltava verificar. Como o homem com a cabeça brilhante, apesar de parecer se aproximar, não o fazia com certeza, não me iluminando nem um pouco mais, nem um pouco menos à medida que eu avançava, o único método que eu encontrei para testar os meus achados à beira mar foi colocá-los na boca e tentar acendê-los. Coloquei, portanto, todos os objetos na boca. Muita areia entrou, eu me engasguei. Tive de retirá-los, cuspir, cuspir, engolir um pouco, depois voltei a colocá-los na boca. Mas eu não tinha fósforos, e tampouco isqueiros! Oh, isso já era talvez demais. Olhei para a lua, ergui o meu pulso e me chacoalhei inteiro. Cuspi os objetos todos à beira mar. O homem continuava com a cabeça brilhando à distância, não iluminando nada, nada além do próprio corpo. Eu gritei, Você tem um isqueiro? Ele apontou para a própria cabeça, como que dizendo, Eu sou um isqueiro. Você tem cigarros?, eu gritei. Ele apontou para a cabeça, como que dizendo, Eu sou um isqueiro. Isso não me ajudava. Tornei a me agachar, então, com o fim de apanhar os objetos que havia cuspido, na esperança de, uma vez alcançado o homem, poder acendê-los na sua cabeça. Mas não os encontrei. Levantei-me e praguejei outra vez contra a lua. Depois, dizendo a mim mesmo que fumar era um hábito ruim e desnecessário, apertei o passo. Pisei na água, era água do mar. Escondi as mãos nos bolsos furados.
Tiago Lima, estudante de Direito





