EXPRESSO
Acabativas
Nós, brasileiros, somos reconhecidos, até mesmo por quem não vai muito com a nossa cara e o nosso jeito abusado de ser, como um povo cheio de iniciativa. Outro dia, assistindo na TV a um programa sobre a vida na Guiana Francesa, esse forte argumento apareceu novamente: entre os milhares de imigrantes que decidiram se aventurar na porção amazônica que fala francês estão operários muito requisitados pelo mercado local da construção civil. O repórter pergunta a um trabalhador saído do Nordeste verde-e-amarelo o porquê da fama da categoria por aquelas bandas. ''Ah, brasileiro é tudo doido. Só mesmo brasileiro para subir num troço desse aí'', disse ele e a câmera mostra uma construção bem alta, onde outros homens estavam trabalhando.
Se nos Jogos Olímpicos - para citar um evento recente - houvesse a categoria ''atleta com iniciativa'' certamente não precisaríamos justificar o número de medalhas que realmente conquistamos. Haveria muitas, e de ouro. Se bem que, particularmente, questiono a verdadeira importância dessa mobilização nacional (e internacional) em torno de competições. Vale a pena tanto esforço físico? Quem é que está ganhando: o atleta ou o patrocinador? E aqueles que só vão com o suor e a coragem. Lutam, saltam, nadam, jogam e se contorcem em nome do quê? Mas, esse já é um tema para outra crônica...
Seja como for, seja onde for, lá está o brasileiro começando alguma coisa: uma viagem rumo ao desconhecido; um treino exaustivo que desafia os limites do corpo; um negócio que pode render milhões ou resultar em dívidas; um curso universitário que, muitas vezes, será trocado ou abandonado. ''O importante é começar'', ouço em coro. Para quê projetos, para quê um percurso traçado, um mapa? Nosso DNA aventureiro nos empurra para começos infindáveis (!). E haja desculpa e explicação quando a iniciativa vai ''para o beleléu''. Afinal, o que importa é dar o primeiro passo. Ou não?
Passei a pensar diferente de mais esse clichê que marca tanto a nossa vida por aqui, ''no País do Futuro''. Eu já tinha uma leve desconfiança de que essa história não combinava com o que eu considero uma vida bem vivida. E a certeza veio durante a palestra do filósofo e educador mineiro Pedro Borges. Num sábado chuvoso, ele foi o palestrante de um seminário sobre ''os desafios da educação no século 21'', promovido pela escola onde meu filho estuda.
Entre uma e outra reflexão que ele despertava na platéia, chamou minha atenção a que propunha um modo ideal de educar nossas crianças. Não basta dizer-lhes o que fazer, como fazer, muito menos resolver os problemas que nos são apresentados por elas. Filhos e alunos, sejam crianças ou adolescentes, devem ser estimulados para desenvolver projetos, preparando-se para a vida. A idéia é de que não apenas as iniciativas sejam elogiadas, mas, principalmente as ''acabativas''. O termo, que ele frisou não ser de sua autoria, aponta, um caminho para a solução de tantos problemas que acumulamos.
Em época eleitoral, fica a sugestão: façamos uma pesquisa sobre as ''acabativas'' dos candidatos que se elegeram no pleito passado.
Luiza Xavier, jornalista.





