Não sou candidato à prefeitura da cidade, mas, se assim o fosse, não teria a menor dúvida sobre qual seria o ponto mais importante do meu plano de governo. Sei que a questão social é latente, que todas as pesquisas dizem que saúde, educação e segurança são os pontos a serem explorados, mas eu falaria de outra coisa. Eu falaria do trânsito. Sim, do trânsito. Mas não iria me ater ao aumento do número de carros, tão inexorável quanto terrível, nem às questões de congestionamento, pavimentação, melhoria ou construção de novas ruas, avenidas, viadutos e por aí vai. Afinal, tudo nessa cidade já é feito para sua majestade, o automóvel, e para seus orgulhosos proprietários.
  Minha proposta seria outra. E assim como o Obama se inspirou no grande filósofo americano William James para sacudir o país yankee, minha inspiração viria de um filósofo, só que brasileiro, o cronista carioca Artur Dapiave. Foi ele que, em uma crônica de O Globo, alertou para um fato muito curioso. Estando a passear, certo dia, pela cidade do Rio, observou uma placa onde se lia: Cuidado com os carros. ‘‘Como assim, cuidado com os carros?’’, pensou. ‘‘Porquê as pessoas têm que tomar cuidado com os carros e não o inverso, os carros tomarem cuidado com as pessoas?’’
  A constatação, óbvia e ululante, levantou, no meu íntimo idealista, uma questão candente. Por que, afinal, tudo tem que ser feito para o carro, como se o pedestre fosse apenas mais um obstáculo (uma lombada, digamos assim) a ser ultrapassado o mais rápido possível por esse ser invisível, o motorista, que cada vez mais só enxerga a vida através da janela isofilme do seu utilitário, do seu importado ou de seu carrão comprado em 90 suaves prestações?
  Eu inverteria a prioridade. E colocaria o pedestre em primeiro lugar. Concentraria boa parte do orçamento do setor para promover amplas campanhas educativas para educar esse ineducável de plantão, o motorista. Vem um pedestre na rua? A preferência é dele. O pedestre atravessa devagar? Ora, pise no freio. O pedestre é imprudente? O pedestre nunca é imprudente. Ele está desarmado na rua, enquanto você, pendurado no seu celular, ouvindo sua FM, está protegido por algumas toneladas de lata. Faria um acordo com a Disney para tornar o genial e clássico desenho do Pateta no trânsito (aquele em que ele se transforma em um assassino quando senta ao volante) em material educativo para todas as escolas e auto-escolas.
  Na minha campanha, não esqueceria, também, de me comunicar com o pedestre, especialmente o pedestre curitibano, sempre tão bonzinho e educado, achando que o automóvel tem sempre razão e que ele é apenas um empecilho. Diria a eles: ‘‘Pedestres de todos os cantos, de todas as classes sociais, crianças, jovens e velhos, uni-vos! Adotem uma postura mais firme, não se intimidem, eduquem os motoristas, desafiem-nos, lutem pelos seus direitos nas ruas. A rua é nossa!’’
  E finalizaria meu programa transformador com o slogan, que, utilizado como um mantra nas eleições, certamente ajudaria a me eleger, com o apoio dessa ampla maioria silenciosa que anda heróica e anonimamente pelas nossas esquinas e avenidas, enfrentando pisos irregulares e calçadas eternamente interrompidas por carros acintosamente estacionados: O pedestre é rei.

Antônio Cescatto, publicitário.

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