Sou um pai tardio. Nina nasceu quando eu tinha quarenta e sete anos (assim mesmo, por extenso, sem numeral, que é para acentuar o orgulho pela idade). Os filhos dos meus amigos já eram adultos quando isso aconteceu. Eu os vi crescer e ouvi, por toda minha vida, esses amigos dizerem aqueles chavões típicos dos pais a quem não o é: ''Crianças têm vontade própria, comem o que quiserem''. E assistia perplexo o regime alimentar composto de mistos quentes, pizzas, nuggets e outros babilaques gastronômicos. ''É do que elas gostam'', complementavam, e qualquer tentativa de argumentação da minha parte sempre esbarrava em um ''Ah, você não é pai, não sabe o que é. Espere pra ter o teu....'', etctera e tal.
Eu esperei pacientemente. Quando Nina veio, achei que tinha chegado a minha hora. E resolvi aplicar um pouco do marketing que tinha aprendido nos meus mais de 20 anos trabalhando em publicidade. Queria, com isso, provar uma tese que nunca formulara, isto é, de que as crianças são um reflexo ou extensão do desejo dos pais.
Entre todas, a experiência do tofú foi o mais marcante. ''Criança não come tofú'', sempre disseram. Tratei de fazer do primeiro contato de Nina com o derivado da soja um momento único. Anunciei (ela já tinha ano e meio) que ela iria provar uma das coisas mais saborosas da sua vida. Que aquela ia ser uma experiência única. Cerquei o acontecimento de outdoors imaginários, anúncios ganhadores de prêmios, comerciais perfeitos, de forma que, quando a pequena colocou o primeiro pedaço na boca, salpicado de shoyo e cebolinha verde, abriu uns olhos imensos de prazer. Desde então, ''tofu'' passou a ser palavra mágica.
Continuamos fazendo isso com todos os alimentos. E nunca permitindo que a frase ''não quero'' pudesse se transformar em um argumento aceitável. Hoje Nina vai do macrobiótico ao filé sem complacência. Derrota qualquer prato em qualquer restaurante com a energia de um adulto. E cada vez que eu a vejo pedir ''mais, papai'', lembro da cara sapiencial dos meus amigos argumentando sobre a irredutível determinação da vontade dos seus filhos. E encho o prato de Nina com um sorriso vitorioso.
Antônio Cescatto, publicitário


Desejos juvenis
Leio no jornal que jovens da periferia voltaram a protestar diante de um shopping center. O objetivo, segundo os organizadores da manifestação, era chamar a atenção para a falta de áreas de lazer e de espaços para quem não mora nas regiões ‘‘nobres’’ da cidade.
  Sintonizo o rádio e o apresentador anuncia um programa especial cujo tema é a expectativa dos jovens quanto à política cultural dos candidatos à prefeitura. Uma voz feminina, não identificada, reclama que, na capital, os espaços culturais têm o ‘‘viés da burguesia’’.
  Por um momento lembro-me do tempo em que era obrigada a acompanhar entrevistas coletivas de economistas. O ‘‘viés de alta’’, o ‘‘viés de baixa’’, o ‘‘viés inflacionário’’. Ou seja, termo mais ‘‘burguês’’ impossível. Mas, faz mesmo alguma diferença, menina?
  Na ‘‘balada’’, tiro para dançar o jovem moreno, magrelo, pequenas argolas nas duas orelhas, mas que chamou mesmo minha atenção por estar usando uma camiseta vermelha com a inscrição da extinta União Soviética. Foice, martelo e tudo mais. O que é isso, companheiro? ‘‘Já fui punk, agora sou menos radical. Tá ligada?’’.
  Sim, e como estou. Às vezes, queria era estar menos, bem menos ligada a essas situações sem sentido. Ou, quem sabe, por demais carregadas de sentido. Eles ainda esperam. A revolução, uma área de lazer pública, uma vida ‘‘não burguesa’’, sabe-se lá o que isso significa atualmente.
  Mas, alerta-me a revista semanal: os jovens brasileiros, de 25 a 30 anos, querem mesmo é emprego e casa própria. Nossa. Que surpresa. Na minha ingenuidade de quase quarentona achava que sonhavam em se divertir em festas ‘‘rave’’ sem fim. Opa, creio que isso seja redundância. Aliás, se o emprego for público, então, melhor ainda. Estão aí os cursinhos preparatórios para concursos que não me deixam mentir.
  Sei não, mas estava iludida, apostando que esta ‘‘galera’’ desejava usufruir da liberdade que conhece desde o nascimento; que esta turma, criada num país sem filas para comprar alimentos, com inflação sob controle e com uma boa dose de tecnologia, quisesse mesmo era conhecer o mundo, se aventurar pelo interior do ‘‘nosso continente’’ chamado Brasil, de virar tudo de cabeça para baixo – ou de ponta-cabeça, vá lá.
  Entretanto, com certo ar melancólico, observo que os ‘‘quereres’’ permanecem os mesmos de décadas passadas. A mesmice do discurso permeado de frases (mal) feitas, os pedidos de solução ao governo (ao sistema?), e o medo de arriscar-se por conta própria ainda travam qualquer possibilidade de mudança real.
  Estará no nosso DNA verde-amarelo? Será uma condenação histórica? Resta-me recordar Cazuza e sua sábia poesia, que aprendi a valorizar tardiamente: ‘‘eu vejo o futuro repetir o passado; eu vejo um museu de grandes novidades; o tempo não pára’’.

Luiza Xavier, jornalista

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