‘Os vileiros são
marginalizados
e têm o seu
direito de
ir e vir
desrespeitados’

No dia 29 de novembro de 2007 (anotei a data e o fato), na Câmara dos Deputados, houve uma reunião da Frente Parlamentar da Cultura, com a presença do ministro Gilberto Gil.
Estavam presentes vários parlamentares e assessores, tanto do ministério quanto da Câmara. Lá pelas tantas, o coordenador da Frente, deputado José Aparecido (PV-MG), afirmou mais ou menos o seguinte: ''Um povo sem cultura é um povo sem soberania''.
Naquele momento, todos fizemos ouvidos moucos. Ou se alguém ouviu, fez como eu: calou-se. Calei-me até porque acho que já andei declarando algo semelhante. Se o fiz, faço aqui um mea culpa.
Calei-me, mas pensei: Não há povo sem cultura. Há povo que não reconhece a própria cultura. Não vê nos seus costumes, comportamento, alimentação, trabalho, dança, etc. um ato ou manifestação de cultura. Outros, por serem vítimas de preconceito ou de perseguição, não reconhecem sua manifestação como cultura, ou a julgam inferior às demais, como se houvesse cultura inferior. Há pessoas e governos que acham. Os Estados Unidos se consideram culturalmente superiores ao resto mundo.
Há também os preconceituosos, ou os que se julgam superiores aos demais, que consideram cultura só aquilo que esteja de acordo com a sua ''verdade''. Dou como exemplo de preconceito o que aconteceu com as manifestações culturais africanas. A cultura africana foi, e em algum lugar ainda é, vítima do preconceito. No passado, no fim do século 19, por ocasião da entrada em vigor do Código Penal da República, a capoeira foi proibida no Brasil. Esta proibição durou até o final da década de 30 do século 20.
Sempre foi assim: os poderosos procuram negar e impor a cultura deles. Os que vivem na cidade, negam a cultura dos que vivem no campo. Negam por entender que o outro não tem cultura. Esta negação é voluntária, mas às vezes involuntária, como a seguinte referência: ''Fulano é aculturado''.
Em todo e qualquer tempo na vida de qualquer povo houve cultura. Pode não ser reconhecida, mas todo e qualquer homem ou mulher tem cultura.
Quando cheguei a Curitiba, na década de 70, vi que existia muita coisa diferente do que estava acostumado. Vestia-me diferente, me comportava de maneira distinta dos demais, gostava de músicas que as rádios daqui não tocavam.
Aqui existiam bailes nas tardes de domingo que se chamavam sarau. Esses saraus não existiam na minha vida (cultura). Comparando as coisas, descobri o que é cultura. Descobri a diferença e a existência de outras culturas. Ao descobrir e reconhecer culturas diferentes, reconheci a mim mesmo e aprendi a respeitar sem preconceitos o comportamento (a cultura) do outro.
A Curitiba de hoje, culturalmente, não é a mesma de quando aqui cheguei. A intolerância, que já existia, se agravou. Culturas não se reconhecem, ou melhor, se chocam, como as dos shoppings centers e as dos ''vileiros''. Os ''vileiros'' são marginalizados e têm o seu direito de ir e vir desrespeitados.
Na rua, são constantemente parados por policiais e olhados de lado pela população. Nos shoppings, não entram. São barrados pelos seguranças.
Dr. Rosinha, deputado federal (PT-PR), presidente do Parlamento do Mercosul.

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