EXPRESSO
Dia 1 - Por ter perdido a cabeça, deve ter sido por isso que eu me esqueci de contar. No dia de ano novo, meus companheiros e eu, a bem-amada ao lado, resolvemos não acompanhar a queima de fogos; fomos até a praça do centro andando, empunhando garrafas de bebida. Estávamos bêbados e felizes, afinal era um novo ano que chegava trazendo esperanças e desesperos. No caminho, brincamos, fizemos piadas uns dos outros, pulamos e cantamos um samba antigo. Uma amigo até tropeçou e fizemos troça dele. Ele se riu, fazendo com nos ríssemos todos.
Fomos à praça não para assistir fogos estourando, luzes surgindo e goles longos de espumante barato. Queríamos mesmo ver a decapitação de um criminoso que assombrara o ano inteiro. Ele matava mulheres. No local, pessoas urravam gritos de ódio e os olhos do que seria morto brilhavam de um fogo que não se via nem no céu. Em contagem regressiva, dez, nove, oito, sete... não se esperou que chegasse até o três da virada do ano para que a lâmina fizesse um estrago em seu pescoço, esguichando vermelho. O ano novo chegou até mim rolando como uma cabeça de assassino. Com a cabeça nos pés, beijei a bem-amada e lhe jurei amor eterno. Fomos embora.
E eu não sei se tudo acabou ou começou com um orgasmo inominável que jorrava de mim.
Dia 2 - Não sei se esse orgasmo é um sopro de vida ou a pequena morte, como o chamam os franceses. Para logo depois abandonar isso tudo e encontrar novamente a rotina. Para receber a vida em conta-gotas. Uma, duas, três... antes de chegar ao sete e já é segunda-feira de novo. Hoje, antes de vir trabalhar, abri uma lata de cerveja e vim tomando no ônibus, enquanto olhares reprovadores - e até mesmo curiosos - baixavam sobre mim (e eu acreditei por um momento que Deus repousava seu olhar sobre meu corpo). E este frio, a lata gelada: minha alma sentiu certo alívio.
E eu longe de ficar bêbado às oito horas da manhã.
Dia 4 - Furioso pela não embriaguez, pensei que de duas coisas - os amores de um homem - importante são os amores passados. Que, se passados, não foram amores. São suspiros benevolentes, que, lentos, vão se tornando mais espaçados. Ou então acabam como o sufoco. Meus ex-amores: uma, um sexo violento. Outra, carregava-a no colo, corpo de passarinho, jeito também - agora ama outro. Uma terceira eu desprezava. Surrava-a feito um cão sem plumas, sarnenta. Batia nela com desprezo e a amava depois. Outra: Miles Davis girando, girando. Um solo dele e ela se encantava por mim. Eu dizia, Está na hora de você ir embora e não se lembre de mim.
E eu ficava sozinho, olhando pro teto, esperando quem já chegou.
Thiago Alonso, repórter da Folha de Londrina





