EXPRESSO
Quem cultiva esse estranho e tão vilipendiado costume de ler jornais, ato que - não cansam de proclamar nossos Nostradamus cibernéticos - encontra-se em franca decadência, acaba, inevitavelmente, seduzido pelas crônicas que neles veiculam. Em meio ao tumulto dos acontecimentos políticos, econômicos, policiais, sempre tão intensos e, ao mesmo tempo, frios e impessoais, as crônicas nos reconciliam com o que existe de mais humano na espécie, concordemos ou não com o ponto de vista que é exposto nelas.
Ao contrariar nossas expectativas com uma opinião pessoal sobre determinado assunto, ao jogar uma luz inusitada sobre um acontecimento que nos toca, ou, simplesmente, ao externar sua raiva, angústia ou insatisfação, o cronista flerta com a possibilidade do erro, introduz um acorde dissonante em uma harmonia monótona que, até aquele momento, parecia a única possível. Traz, em outras palavras, a poesia para o território da prosa. Por isso é natural que a crônica flerte, também, com o cotidiano, com as atividades corriqueiras que jamais irão ocupar o lugar de manchetes e notícias na pauta de um jornal: é uma estratégia para destituir de grandeza os acontecimentos, relativizando-os a partir da experiência única e intransferível de uma pessoa, no caso, o cronista.
Quando esse cronista, no entanto, transforma a sua experiência cotidiana no leit-motiv de todas as suas peças, atendo-se a elas com a tenacidade com que um político, por exemplo, atém-se a sua ideologia, o gênero crônica esclerosa-se rapidamente, tornando-se vítima daquilo que, teoricamente, seria sua maior virtude. Da mesma forma, se o exercício da crônica descola-se da vida pública e compartilhada por todos para refugiar - se no plano da pura experiência estética, perde também o que lhe dá sustentação e medula, tornando-se apenas uma demonstração narcísica das habilidades e talentos para a prosa ou para a poesia do poeta ou escritor em estado de cronista. Há, portanto, uma linha frágil e tênue entre a boa crônica e a crônica viciada, e distinguimos o praticante dessa arte pela sua capacidade em manter a tensão entre os diferentes textos que produz, de forma a que não se deixe levar nem pela sedução do cotidiano nem pela mera manipulação estética.
Exemplos de cronistas que conseguiram levar esse diálogo a níveis de arte não faltam na tradição jornalística brasileira. Não seria preciso ir muito longe e lembrar de Paulo Mendes Campos, do grande Marques Rebelo, de Stanislaw Ponte Preta e tantos outros: os exemplos também estão nos jornais do Rio e São Paulo de hoje, onde acompanhamos a inquietação dos paulistas (Caligaris, Da Matta, etc) ou o frescor dos cariocas (Daipave, Xexéo, Cora Rónai), todos, porém, permanentemente envolvidos com o cotidiano da vida da cidade e do País. Opinião e participação que, muitas vezes, não encontramos nos cronistas de Curitiba e do Paraná, muito envolvidos com um certo epicurismo doméstico ou um esteticismo literário, que os leva a nunca sujar as mãos com o que diz respeito à vida compartilhada, preferindo ater-se ao tumulto na sua mesa de trabalho, a alguma intercorrência com seu computador, as peripécias de seus infant-terribles, a uma lembrança de infância ou a uma tentativa de mini-conto ficcional.
Nossos cronistas são todos bons-moços. Não se permitiriam, por exemplo, as vulgaridades de um Emilio de Menezes, o sátrapa curitibano do início do século 20 que, com um simples epigrama, desmoronava uma lenda e colocava em xeque as mais sólidas reputações.
Antônio Cescatto, publicitário





