‘Que desencanto a qualidade da música que somos obrigados a ouvir
nas noites da Vila Izabel e de Curitiba’

  Já cantei os cantos dos pássaros, os saberes, os sabores e os dissabores do bairro Vila Izabel. Falta o cotidiano e os desencantos do dia-a-dia.
  Os dias têm seus movimentos, coletivos e sincronizados. ‘‘Coletivos’’ porque são movimentos de muitas pessoas, ao mesmo tempo. ‘‘Sincronizados’’ porque repetidos todos os dias.
  Logo cedo, todos os dias, antes das sete e meia da manhã, muitas crianças saem de casa, sozinhas, com os pais ou em ônibus escolares. Vão para a escola. É um movimento que muitos fazem. Por isso, chamo de coletivo e sincronizado, porque é cotidianamente repetido.
  Logo após a saída das crianças para a aula, entram em cena outros personagens. Ou melhor, outras, pois são mulheres que repetem todos os dias os mesmos caminhos: de suas residências para as casas onde trabalham como domésticas ou diaristas.
  Em seguida, é a classe média que sai de casa, em geral de carro, para congestionar o trânsito e ir ao trabalho.
  No final da manhã, o sentido do movimento começa a se inverter: crianças voltam da aula, alguns pais e mães chegam para o almoço e, das quatro da tarde em diante, são as domésticas e diaristas com suas sacolas (este objeto parece característico desse grupo de mulheres) retornam para suas casas.
  São mulheres que, desde manhã, já tem o aspecto de cansadas. Mas, à tarde, observa-se nelas não só o cansaço, mas também, em muitas delas, um rosto de desânimo e até de desencanto. Durante todo o dia, deixaram a própria casa para limpar a de outrem. E, ao chegar em suas próprias casas, ainda têm tudo por fazer. São rostos cansados pelo trabalho e, às vezes, pelo mau trato.
  Observo também na Vila a dificuldade dos idosos e dos portadores de deficiência. As calçadas são esburacadas, irregulares, interrompidas, com degraus, enfim, com todo tipo de defeitos. Não conseguem andar e, volta e meia, tomo conhecimento de que um idoso ou uma idosa caiu. Que agruras, meu Deus, sofrem estes senhores e senhoras.
  Desencanto também é ver a quantidade de cachorros que fazem as necessidades nas calçadas, e seus donos ou donas que vão embora e deixam a sujeira para quem vem atrás pisar. Nos finais de semana é pior: há gente de todas as idades com cachorros de todas as espécies e tamanhos. Não sei quem leva quem para passear.
  O mundo e a Vila Izabel têm muitos cachorros. Na China, já é proibido: o que fazer com tanta urina e fezes? Como dar de comer a tantas bocas? Não sei se na Vila há problemas como esses. Haverá lugar para enterrar o animal que morre? Ou vamos cremá-los para aumentar a poluição do ar?
  Não somos diferentes do resto da cidade em termos de violência (já relatei aqui tal dissabor) e uso de drogas pelos adolescentes. Ambos os problemas entraram em muitas casas, como entra o ruído noturno das ambulâncias, buzinas, pneus que cantam e rádios em altos decibéis. Que desencanto a qualidade da música que somos obrigados a ouvir nas noites da Vila Izabel e de Curitiba.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal (PT-PR)

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