EXPRESSO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Luiza Xavier (*) 
Entre as tantas amizades que, graças a Deus e à minha paciência, eu cultivo, uma das mais interessantes é com a Analúcia. Isso, assim mesmo, tudo junto. Sabe-se lá porque o homem do cartório juntou dois nomes num só. Eu prefiro chamá-la de Analu, a linda. Porque é isso exatamente o que ela é: uma criatura linda.
Além do rosto e do corpo perfeitos, ela é um ser humano bom. Sempre foi, desde criança. Daquele tipo preocupado com o futuro da humanidade enquanto nós, pobres e fúteis mortais, só queríamos saber se iríamos conseguir atrair a atenção dos nossos amados durante a festa de fim de ano do colégio.
Não por acaso, Analu formou-se em Medicina. E escolheu especializar-se em Dermatologia. Correu o País e boa parte do mundo participando de missões humanitárias. Ela sabe tudo sobre cirurgias reparadoras, tratamentos de queimados, bancos de pele, entre outros temas pouco agradáveis a esse mundo onde a imagem vale muito e o conteúdo, pouco.
Mas, um dia, o mundo mítico de Analu ruiu. Depois de um casamento festejado, do nascimento de sua filha tão desejada, ela viu-se sozinha diante de pilhas de contas para pagar, tão logo seu, até então maravilhoso marido, a trocou por uma cabeleireira dez anos mais jovem. Como toda mulher independente, ela deu a volta por cima. Entretanto, ficou debatendo-se entre a ideologia e a dura realidade.
Minha amiga teve de abrir mão de suas viagens pelas causas nobres e viu-se obrigada a trabalhar com a chamada estética médica. Logo ela, sempre tão despojada com a própria aparência. Nos últimos três anos, dedica-se a cuidar de estrias, amenizar celulites e fazer desaparecer marcas e manchas dos rostos de ''madames'' (é antiquado, mas a gente se refere a elas desse jeito mesmo) que não poupam reais para conseguir um visual melhor.
Minha amiga tornou-se uma empresária da beleza. Consegue oferecer uma vida confortável à filhinha, mas vive às voltas com sentimentos de culpa por não ter mais tempo para dedicar-se àquilo que ela considera a real missão de todo ser humano: ajudar o próximo.
Em meio a momentos de angústia, ansiedade e depressão, minha doce e altruísta amiga Analu começou a frequentar sessões de psicoterapia duas vezes por semana. Ela diz que é um modo de tentar se reencontrar com seus ideais. Eu apenas ouço. E, às vezes, também me surpreendo e emociono. Afinal, os amigos também servem para isso, para compartilhar emoções e sentimentos nem sempre compreensíveis pela maioria.
Mas, como sou inquieta demais para apenas ouvir, tive a autorização de Analu para contar um episódio, no mínimo, surpreendente. Dia desses, ela saía do consultório do terapeuta, no Centro, quando viu uma idosa, beirando os 70 anos, abordando as pessoas, pedindo dinheiro. Tentou esquivar-se, pois não considera correto dar esmolas. Porém, a mulher a abordou de um jeito do qual ela não pôde escapar.
Analu, a ''dermatologista das estrelas'', tinha apenas cinco reais na carteira. Ela acha mais prático pagar tudo com cartão. Sem saída, puxou conversa com a mulher, soube que ela morava na região metropolitana e que recolhia latinhas, mas que, aquele dia, ''estava difícil''. Em uma fração de segundo, Analu lembrou da mãe, que mora no exterior e com quem não conversa há meses, e estendeu a nota à mulher. Esta, num impulso, agarrou Analu, deu-lhe dois beijos no rosto, desejou ''tudo de bom'' e saiu cantarolando, como se tivesse acertado na loteria. Para ela, talvez tenha sido algo bem parecido.
(*) Luiza Xavier é jornalista em Curitiba


