EXPRESSO
O Café da Boca fechou
O Café da Boca fechou
e ninguém falou nada.
O Café da Boca fechou
e ninguém protestou.
O Café da Boca fechou
e não se ouviu um pio.
O Café da Boca fechou
e ninguém mais vai tomar
o melhor Café Damasco
do mundo no Café da Boca.
Mas como chorar pelo Café
da Boca com tanta coisa
urgente para pensar?
O crime covarde contra
a pobre criança, o vôo sem
asas do padre que queria
ser santo, as novas reservas
da Petrobras são, decerto,
mais importantes. Não há,
portanto, porque lamentar.
Constatemos, apenas: o Café
da Boca fechou. E o Café
da Boca era para poucos.
Os poucos que ficaram, os
poucos que foram embora,
os poucos ainda capazes
de lembrar, quando a hora
sagrada do cafezinho chega,
como era bom o Café da Boca.
Antônio Cescatto, de Curitiba
Dissabores da Vila Izabel
Sou um cidadão metódico assim diz quem comigo convive. Há quem exagera, e diz que sou tão metódico quanto o segundo marido da dona Flor, do romance de Jorge Amado.
Mas, metódico ou não, raramente começo a escrever um artigo ou crônica e envio ao jornal no mesmo dia. Geralmente, escrevo e guardo no computador, para um ou dois dias depois, ou às vezes após algumas semanas depois, fazer uma revisão. E sempre mudo o texto original ao revisá-lo.
Numa ocasião, li que Graciliano Ramos era resistente a publicar seus romances, pois considerava-os sempre inacabados, pois em cada revisão fazia mudanças. Já foi dito também que Dalton Trevisan, ao reler seus contos, vai cortando e diminuindo-os de tamanho. Boa parte deles são os mesmos, só que mais curtos.
Cito esses exemplos não porque me considero alguém da importância de ambos, mas simplesmente para comentar que tanto Graciliano quanto Trevisan têm em comum um método de trabalho. E eu, justamente por adotar um método similar, tive a possibilidade de mudar a presente crônica (?).
No sábado (26 de abril), sentei-me à frente do computador e comecei a escrever mais um texto para essa FOLHA. Mais uma vez, escrevia sobre o bairro Vila Izabel, em Curitiba. No meu método, o título é o último que surge. Terminei o texto e tasquei o título: Há desencantos também.
O primeiro parágrafo começava assim: Já cantei os cantos dos pássaros, os saberes e os sabores do bairro Vila Izabel, em Curitiba. Falta falar do desencanto do dia-a-dia. Digo desencanto porque há um cotidiano da vida e suas agruras. Há também as agruras da solidão noturna. Destas, não falo.
Tal crônica, após sua revisão e alterações, ficará para outro dia. Ao terminá-la em sua versão inicial, e salvá-la na memória do computador, vou até uma farmácia, comprar as químicas que me mantêm vivo. Digo desta forma porque, na minha última consulta cardiológica, o médico me disse o seguinte: O senhor está bem, só que não pode parar com os medicamentos. Sem eles, terá problemas de saúde.
Por ser médico também, deduzi: Sou um dependente químico. E fui à farmácia em busca da minha droga.
Da minha casa até a drogaria, é possível ir a pé. Por isso, considero-a localizada na Vila Izabel, mas ela está mais para o lado do bairro Portão. Estou em pé, na fila do caixa. Na minha frente, há mais duas pessoas. Logo atrás, outras duas. Na maior tranqüilidade que se pode ter, chega um cidadão que, no linguajar de repórteres policiais, seria chamado de elemento. Ele cutuca a senhora que está no caixa, e ordena: Vá para o fundo da farmácia. Em seguida, em voz baixa mas firme, volta-se para os clientes: Todos para o fundo. Só então observei que o cidadão tinha uma arma na mão pelo pouco que conheço, uma pistola automática.
Era um assalto à mão armada, às cinco e meia de uma tarde tranqüila de sábado. E o assaltante estava só.
Após ameaçar a todos, limpou o caixa e foi embora, caminhando pela rua com se nada tivesse acontecido.
No caixa, no momento de pagar a conta, perguntei se era a primeira vez. Não, somos assaltados, em média, duas vezes por semana, foi a resposta da funcionária. Que completou: Esse mesmo já nos assaltou várias vezes.
Assim como os demais fregueses, um pouco tenso e nervoso, saí da farmácia levando mais um dissabor da vida e da Vila Izabel.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal (PT-PR)





