Na Sexta-feira da Paixão, levantei-me e cheguei à janela. Olhei para a rua molhada. Nela, algumas folhas amareladas brilhavam. Olhei por toda a extensão da rua, e observei que as árvores estavam com folhas de várias tonalidades, que variavam do verde ao amarelo. Chegou o outono.
Pelo tempo do calendário, o outono chegaria no dia seguinte, que neste ano coincidiu com o Sábado de Aleluia. A ''aleluia'' é um grito de júbilo dos anjos depois do juízo da prostituta, que aliás não tem nada a ver com o Sábado de Aleluia, conhecido como ''Sábado Santo'', que antecede o domingo de Páscoa.
Desde a infância, mesmo sem conhecer o significado exato da palavra, sempre tive a idéia de que ''aleluia'' significava alegria, coisas leves como plumas voando, enfeitando o ar, como as folhas amareladas que voavam na brisa leve e fresca da última semana.
Quando vim morar aqui em Curitiba, ouvia que a cidade tinha as quatro estações num só dia. Outros já diziam que só tinha duas: a rodoviária, onde hoje é o terminal Guadalupe e a ferroviária, que depois seria transformada em rodoferroviária.
Com a idade, tenho observado com mais atenção a variação das estações. Com o avançar da idade, tenho a impressão de que fica difícil suportar o inverno. As pernas e os pés não esquentam. Assim, cada vez mais prefiro as estações mais quentes. Se bem que o verão muito quente também me incomoda.
Quando criança, a única estação que sabia quando começava era a primavera, pois sempre havia uma aula que falava da importância da árvore e que iríamos entrar na estação mais bonita do ano. E o dia da árvore é praticamente o início da primavera.
Mas há quem prefira o inverno. Tenho comigo a lembrança de que uma pessoa que preferia o inverno era o Paulão -o ator e diretor Paulo Friebe (1962-2006). Lembram, não importava a estação, o Paulão estava sempre de bermuda, camiseta e uma grande risada. Verdadeira gargalhada.
Da minha infância, uma das coisas que lembro, em relação ao inverno, é que o dia de São João era o dia mais curto do ano. Ensinaram-me que, em tal data, o santo dorme o dia todo. Não me perguntem por quê. Diziam-me também que se o santo acordasse, o mundo acabaria.
Para o santo não acordar, nós, crianças, tínhamos que ficar quietas: não gritar, não brigar, não chorar, ou seja, não fazer nada. Hoje, eu imagino que esses eram os melhores dias para nossas mães. Ela só fazia ''psiu, silêncio, senão São João acorda e o mundo acaba''. Ninguém queria ver o mundo acabar.
No outono passado, assim que as folhas caíram todas, início de inverno, pude ver na árvore, na rua em frente onde moro, duas caixas de marimbondo e uma casa de joão-de-barro. Tudo abandonado.
Dias depois, num domingo pela manhã, fui obrigado também a dar uma bronca em dois meninos, que faziam aquilo que na infância fiz muito. Jogavam pedras e pedaços de madeira na árvore, tentando derrubar ou arrebentar as duas caixas de marimbondo.
Estamos entrando no outono (aleluia!). Uma das caixas de marimbondo e a casa do joão-de-barro ainda permanecem na árvore. Aleluia! Vou assistir ao belo pôr-do-sol dos dias de outono.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul

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