Com que roupa eu vou? Essa foi a preocupação-dúvida de Noel Rosa, quando convidado para um samba. E é uma preocupação cotidiana na vida de muita gente, principalmente das mulheres. Confesso que até eu, às vezes, sou assaltado por essa dúvida e me pergunto com que roupa vou a determinado evento.
No cotidiano de Brasília, para os afazeres do Congresso Nacional e eventos, tenho um uniforme: camisa, calça social, paletó e gravata. Para não ter dúvida na combinação, é melhor um uniforme mais tradicional: terno, camisa branca e gravata.
Mas, fora de Brasília, não sou muito chegado a esse uniforme de autoridade. E, sem ele, vivo o dia-a-dia do cidadão comum. Assim, noto a diferença no trato e como as pessoas têm a imagem formada de uma autoridade.
Na última sexta-feira, fui a um debate sobre o Parlamento do Mercosul na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Estava tudo certo que alguém me esperaria no aeroporto. Chego e espero 30 minutos, mas não encontro ninguém me esperando no local. Quando estou no táxi, telefonam-me dizendo que não me encontram. Porém, ao informar que já estava a caminho, dizem que vão me esperar na porta de entrada da Assembléia.
Chego lá e ninguém vem ao meu encontro. Identifico-me no balcão e me ponho a esperar. Vejo que uma moça, dessas contratadas para eventos, espera alguém. Apresento-me. Ela diz: ''Ah! Estou esperando o senhor, mas esperava alguém de terno e gravata''.
Entro na sala do debate e a mesa de debatedores está sendo formada. Chego e me apresento a todos, inclusive ao presidente da Assembléia, que vai fazer a abertura. Todos os debatedores estão de uniforme, menos eu, com minha calça de brim e camisa de algodão.
Mesmo tendo me apresentado, no momento de o Presidente me apresentar, engasgou-se. Primeiro, engasgou com o meu apelido, quase não sai o ''doutor Rosinha''. E, quando saiu, olhou para todos na mesa e perguntou: ''Onde ele está?''
Neste momento, concluí o que tinha ocorrido: foram me buscar no aeroporto, porém não levaram um pequeno cartaz com o meu nome. Assim, não os localizei. Imaginavam encontrar alguém uniformizado: terno, camisa branca, gravata e um ''boton'' na lapela do paletó a identificar um deputado federal.
Porém, o cidadão que desembarcou estava com roupa simples (como dizem alguns, ''limpa e digna'') e, ao contrário, de levar uma maleta de couro, portava uma simples mochila.
Creio que este pequeno fato registra algo mais sério: a cultura de muita gente de que, se o cidadão estiver ''bem vestido'', com uma roupa ''compatível'' para aquele evento ou situação, ele é ''alguém'' e deve receber um tratamento diferenciado. Caso contrário, se entenderem que a roupa não é adequada, o tratamento é outro.
Não estou reclamando do tratamento que recebi no evento em Porto Alegre. Apenas mostro que é fruto de valores sociais.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente do Parlamento do Mercosul

mockup