Até nas figuras folclóricas, Curitiba é conservadora. Nunca muda. Desde o tempo de escola, utilizo as linhas do biarticulado Santa Cândida/Capão Raso e Pinheirinho/Rui Barbosa. Desde o tempo de escola, os mesmos personagens se revezam na tarefa de tornar a viagem um tanto mais impiedosa.
Soa a campainha. As portas do tubo e do ônibus se abrem. Lá está o Daniel. Você também deve conhecê-lo. Naquela época do Colégio Estadual, Daniel já usava o discurso do HIV (vírus que transmite a Aids). Em meados da década de 90, a doença ainda era tabu. Assustava muito mais do que hoje. Dizendo-se infectado e impossibilitado de conseguir emprego, ele pedia dinheiro para comprar marmita. Eu ajudava como podia, com os antigos VTs, aqueles de metal, que pareciam uma moedinha.
Até que um dia - pode demorar, mas esse dia sempre chega para os picaretas -, um amigo, cobrador de ônibus, alertou-me da grande falcatrua que era Daniel. Numa outra linha, ele teria sido pego numa tarde de mau humor. ''O motorista falou para o tal do Daniel que era proibido pedir esmola dentro do ônibus. O Daniel virou para ele e falou: 'Eu pedindo aqui ganho muito mais do que você trabalhando aí''', contou meu amigo. Desde então, nunca mais dei um vale para ele.
Mas levou mais que um Daniel pra eu aprender a lição. Mais um dia. Sol forte. Ônibus lotado. Estava com a cabeça grudada na janela do ônibus, em devaneios sobre a minha certa vitória no próximo sorteio da Mega-Sena. Uma Blazer, uma casa em Florianópolis, uma viagem a Europa. Parênteses: não só nunca ganhei na Mega-Sena como virei jornalista. Um senhor de meia idade me traz de volta à realidade. Ele vem caminhando em direção ao fundo do ônibus, onde estou. Com cara de dor, carregava um pacote transparente, estranho, com alguma substância gosmenta, ao lado do corpo. Chegou dizendo: ''Pode me ajudar? Eu operei e tenho que deixar o pâncreas pra fora.''
Credo! Muita informação, senhor, muita informação. Dei ''cincão'' e estimei melhoras. Desejava mesmo que ele fosse embora. Na falta de alternativa, fui eu. Mais à frente, um estudante de medicina, que assistiu a cena, sentenciou: é uma farsa. O sentimento de ter ajudado dá lugar ao de ter sido roubado. ''Perdi cincão'', disse, acompanhado de um palavrão. Uma freira que também presenciava a conversa assume o meu papel de ''bom samaritano dos biarticulados''. Deus me recompensaria, ela garantiu.
No mesmo trajeto, me deparava várias vezes com essa mulher loira que teria uma filha em estado terminal. A menina estaria internada no Hospital do Trabalhador. Sempre senti pena desta mãe. Ela pedia dinheiro para comprar remédios. Um dia, perguntei o nome completo da menina. Achava que poderia fazer mais do que apenas dar esmola. Sugeri uma campanha publicitária, imaginei uma grande mobilização para salvar a pequena. Cheguei no meu emprego e liguei para o hospital. Não tinha ninguém com aquele nome internado. Ninguém conhecia a história. Mais uma vez, enganado. Cadê a freira?
Fiquei anos sem utilizar aquela linha. Ontem, por acaso, voltei a usá-la. Sentei no banco da frente, perto do motorista. Perguntei se os figurões continuam pedindo dinheiro. Claro, Curitiba não muda. A cidade é que adapta as pessoas.
Meu banco era preferencial para idosos ou gestante. Do meu lado, uma grávida. Justo. Pouco depois, entra uma mulher e fica em pé na minha frente. Analisei, não aparentava se incluir em nenhum dos requisitos para ocupar meu lugar. Não vi motivos pra mexer a bunda. No fundo, pensei, estou fazendo um favor para as feministas: igualdade. Usei a tática mais batida por qualquer pessoa que está ''confortavelmente'' sentado num ônibus lotado. Fingi ser um fantasma. Enquanto ela me encarava, eu olhava o horizonte. Afinal, ela poderia acabar se ofendendo se eu oferecesse o banco. ''Está me chamando de velha?''. ''Não, eu não estou grávida''. Regra número um de um gentleman: nunca ofenda uma mulher. Permaneci apreciando o horizonte.
A voz da moça que fala no biarticulado anuncia minha parada. Antes, como um grand finale para a viagem que lembrou tantas outras, a mulher à frente faz o favor de deixar claro que, sim, tudo permanece o mesmo. Sim, você sempre está errado. ''Não vai ceder um lugar para idosa, seu moleque? Não aprendeu nada em casa? Não teve educação?''. Saí calado. Adeus, biarticulado!

Diego Ribeiro, jornalista.

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