EXPRESSO
Fico esperando o momento de precisar socorrê-las. Nos fios elétricos, formam notas musicais (''Os pássaros pousados na pauta dos fios... / Eles é que são sucessivamente improvisando / - um após outro - / A letra e a música dos ventos'', na poesia de Mário Quintana).
Se músico fosse, tocaria a música dos ventos composta pelas andorinhas. Voam, planam e soltam o corpo num rasante tocando a água. São acrobacias, vôos sincronizados e novos rasantes sobre a água. Voltam para os fios elétricos, compondo outra pauta musical, onde se sacodem retirando a água que ficou entre as penas.
O que é mais musical: o ''dó, ré, sol...'' nos fios elétricos ou os vôos sincronizados? O que é mais poético: o planar ou os trinados que emitem? O que é mais alegre: a alegria delas ou a minha de ser o observador deste balé que executam sem saber que o fazem?
Por um momento, todas estão sobre os fios: em silêncio secam-se sob o vento fresco da tarde. Logo depois, tudo recomeça e eu assisto o espetáculo pronto para a qualquer instante socorrer uma andorinha que, por um rasante mal dado sobre a água pode afundar e se afogar, quebrar uma pata ou uma asa. Chego quase a rezar para que isso não ocorra e, Deus me livre, uma delas quebre o seu pescoço.
Não sei como se dá a iniciativa e se há uma líder, mas todos os dias, entre quatro e meia e cinco da tarde, inicia-se o bailado. Enquanto as andorinhas se preparam (voam e planam) para o rasante sobre a água, um bem-te-vi as observa, em pé, ao lado da piscina. Vê e dá um salto para a água. Não é um vôo, é um pulo, um salto. Pula para a água e volta para a borda. Faz isso três ou quatro vezes, voa para uma árvore e canta. Essa é a festa da tarde.
A algaravia da manhã começa cedo, antes das seis. Entre cantos, pios e todo alarido de pássaros, há um assobio. É alguém assobiando o hino nacional. Inicia-se o assobio e não vai além do primeiro verso. Fica assim por cerca de uma hora. Depois, intercalada de tempos em tempos, a tentativa de assobiar o hino nacional é repetida o dia todo. Depois de três dias vou conferir quem é o artista: é um papagaio.
A tentativa diária de assobiar o hino nacional me recordou o primeiro mandato de deputado estadual (1991-1994). Naquela legislatura, foi apresentado por um deputado que mantém mandato até hoje (por isso não cito seu nome) um projeto de lei propondo que o hino nacional fosse cantado todos os dias em todas as escolas públicas do Paraná. Alegava o parlamentar que o projeto era importante para estimular o patriotismo.
Na ocasião, achei - e continuo achando ainda hoje - projetos desse tipo desnecessários, inócuos. Afinal, não é uma lei que obriga as pessoas a cantar diariamente o hino nacional que tornará alguém mais ou menos patriota e defensor do país em que vive. Isso é feito ao longo do processo de formação da cidadania.
Um país (Estado) que abandona seu povo, por ele será abandonado. Quanto a cantar o hino nacional, não é preciso lei. Basta querer cantá-lo. No meu tempo, o aprendizado do mesmo se dava nas aulas de educação artística.
Lembro-me que, ao me colocar contrário ao referido projeto, fiz uma breve brincadeira dizendo que ia apresentar uma emenda (coisa que não fiz) ao texto propondo que as crianças que cantassem em casa - e provassem que haviam cantado - e os surdos-mudos estavam isentos de cantar o hino na escola.
Essa brincadeira me custou uma tentativa de agressão física, que foi inclusive registrada pela imprensa na época, por parte do deputado autor da idéia.
O papagaio, por não saber assobiar o hino nacional por inteiro, deve em sua época de aprendizado ter faltado às aulas. Ou será que, se assobiasse todos os dias, ele teria aprendido e seria mais patriota do que é hoje?
Assisti ao balé das andorinhas e encontrei o papagaio na cidade Salinópolis, no Pará, onde passei o ano novo e experimentei o pato ao tucupi e maniçoba. Termino esta redação sobre as minhas férias tranquilizando o(a) leitor(a): nenhuma andorinha ou bem-te-vi precisou de socorro.
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)
e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.





