EXPRESSO
Chamo de folga de carnaval o período que vai das 18 horas da sexta-feira até o meio-dia da quarta-feira de cinzas. Alguns chamam este período de ''feriado de carnaval''. Não é feriado. Para muitos, é um período de férias para se aproveitar o tempo, ficar com a família e descansar com sossego. Para quem mora em Curitiba, o melhor para descansar é ficar na cidade. Afinal, dependendo da praia, o barulho é demais.
Em Curitiba, em determinadas horas do dia e em determinadas ruas, o ruído de motores e carros é mínimo. À noite, mesmo num ''final de semana prolongado'', o silêncio é maior. São os melhores dias para, dentro da cidade, ouvir o barulho da natureza.
Fiquei em Curitiba para descansar, ler, escrever e ouvir a natureza. Todos os dias, depois das 18 horas, fui caminhar no Parque Barigui. Boa pista para se andar, mas já um pouco cheia. Mas o pior é o odor. Dependendo da área do parque, o lago cheira a esgoto. Mas não é sobre essa ''cidade ecológica'' que quero falar. Durante a caminhada, inevitavelmente, ouve-se e vê-se uma série de coisas. Por estar caminhando, não se ouve a conversa toda. De tudo se ouve um pouco, e tudo fica pela metade - ou menos que isso.
Num dos lados do parque, há algumas mansões. Andando no sentido do relógio (dos antigos, com ponteiros), uma das últimas do lado esquerdo chama a atenção pelo seu tamanho e luxo. Uma família, que pelo aspecto e pelos comentários deve ser de classe média baixa, pára, olha para casa, e a senhora comenta: ''É muito grande, imagina morar ali e ter que limpar todos os dias''.
Creio que há pessoas que olham para a mansão e desejam ser suas proprietárias. Olhar e imaginar que é preciso limpá-la todos os dias é próprio de pessoas simples e que dão um duro danado. Nem imaginam que, para morar lá, precisariam de muito dinheiro e teriam empregados e empregadas.
Há muitas coisas, além da natureza, para serem vistas e ouvidas. Uma senhora chama pelo seu cachorrinho e diz: ''Vamos que o papai está esperando''. Entendi que ela era a mamãe, e o papai, o marido (dela).
Vi muito mais. Vi um cachorro, de óculos, conduzindo ou sendo conduzido por um senhor. A todo instante, o cachorro era parado para ser fotografado - só ou acompanhado. Todos viam o cachorro. Se viam o seu dono, não sei.
Vi e ouvi uma menina de cinco anos dizendo ao seu irmão menor que teve uma idéia importante. Como caminhava, não consegui ouvir a idéia. Mas para ter uma próxima folga de carnaval melhor que esta, sugiro que o Rio Barigui seja recuperado, para que o parque não seja tão fedorento. E que se proíba música acima do recomendado por lei - principalmente música de mau gosto.
Dr. Rosinha, médico, deputado federal e vice-presidente do Parlamento do Mercosul





