EXPRESSO
Quando chega Natal, me sangro, até choro, neste túnel apertado, enrolado, obscuro
Como todos os anos acontece, então é Natal!
E eu aqui só verme ver a estrelas a nascer.
A esperança é que o projeto nasça feto solitário sem afeto.
O peito grávido me rasga, me engasgo, o coração bobo explode à vigília desta tarde que espoca relâmpagos.
A chuva tamborila os primeiros pingos.
A cortina descerra a noite escura.
Sequer disse algum mago que estou na iminência de nascer.
Não queria que apagassem meu spot light, não queria ver nem ouvir os raios e os rojões estridentes.
Queria ficar introjetado, escondido, amoitado, esperando a hora de nascer.
Queria molhar-me à chuva com asas de prata, inebriar-me ao estouro e à espuma das champagnes.
Queria paz na terra aos homens de boa vontade.
Antes saísse logo dessa fossa agonia de tirar cria.
Queria um porre de alegria, mesmo efêmera fosse, mesmo que enrustido no capô o rajar dos velhos motores.
Encolho-me capisbaixo mais fóssil que dinossauro de esgoto.
Junto-me ao cantinho pertinho da minha sexagenária pincher.
Espreguiço-me no seu quartinho, cadê-la?
Aqui só finjo que não moro, nem quase durmo, não tenho morada, namorada, nada, só vaga-lume, vagabundo.
Quando chega Natal, me sangro, até choro, neste túnel apertado, enrolado, obscuro.
Em tripas de sangue e fezes me fizeram.
Me enrolo nas trevas do ventre dilacerado, reluto-me a extrair-me em dilatado furor.
Ó, igualmente fosse um bendito fruto, não fosse a flor do mal humorado, o demômio humanado.
Fosse apenas doce e não a reprise salgada dos natais de brigas nos lares, de fuga aos bares de tanto azares.
Mas o que fazer ante a cassação da mente, a prisão de ventre, senão a busca no copo, o habeas corpus, habeas mentem!?
Tá ruim, mas tá bom!
Eu aqui ensimesmado, sem juízo indeciso a nascer à forcéps, azeitado de aminiótico líquido de divina cólera, a espatifar-me do útero ao chão adúltero, já que me programaram para nascer todos os finais de ano, justamente porque este é o ponto final da trama e dos trâmites, enquanto transito em julgado vítima da estupidez dos néscios, da truculência facínora dos algozes e dos meus defensores tridentes.
Um dia eles subtraíram minha certidão de batismo, mutilando minha primeira cidadania.
Depois, os rábulas escribas facínoras roubaram meus bens móveis e imóveis com a trama sequencial em que partilham reciprocamente meus despojos com a anuência dos senhores juizes.
Não sabem eles - esses insanos doutores em má fé, psicopatas enrustidos, advogados canalhas, delinquentes explícitos - que ao me furtarem tomam meu vinho e o pão de meu filho.
E como todos anos acontece, estresso mais e melhor no período de gestação de minha intensa provisoriedade.
Então é Natal.
Que nasça, saia desta cartola, já é tempo.
Feliz Natal!
José Aparecido Fiori, escritor.





