A primeira providência para quem deseje visitar o Salão de Arte Paranaense de 2007 é encarar um gesto nada estético: subir a escada. Apesar de reservar um primeiro andar com surpresas tão interessantes quanto uma estranha mesa quebrada (que se transforma em escultura) logo na entrada, o lastro da exposição, aquilo que dá a ela o equilíbrio e a âncora para se instalar, como um navio feliniano, em plena Praça Zacarias, no centro da esbórnia urbana, são as pinturas sobre resina acrílica do paulistano Dudi Maia Rosa. Estrategicamente colocados na saída da escadaria, os três quadros nos recepcionam com um bem vindo de espantosa nobreza, oferecendo-nos o ponto de partida para qualquer um dos pontos cardeais a que nos dirijamos. Pois o Museu de Arte Contemporânea de Curitiba é, por si só, um curioso paradoxo, ao exercer sua função de templo modernista com sua característica arquitetura eclética: a casa possui uma divisão rígida; um eixo central e quatro cunhas, duas em cada andar; em cada uma dessas cunhas, três salas dispostas em módulos articulados a partir do centro.
E tudo isto, naturalmente, determina a dinâmica de uma exposição de média escala (são, afinal, 28 artistas), condicionada aos espaços angulosos e intrincados do Museu.
Mas não foi apenas a arquitetura do espaço que determinou o perfil da exposição. Mais importante que isso é o fato dela ter sido visivelmente pensada para ser uma exposição de arte contemporânea acontecendo em Curitiba, não uma exposição de arte contemporânea de artistas de Curitiba. E o que poderia parecer apenas um simples jogo de palavras é o que, acredite, faz toda a diferença.
Em uma época onde somos informados que um evento da magnitude e importância histórica para a arte brasileira como a Bienal de São Paulo não vai ter nenhuma obra de arte, transformando-se no sonho dos curadores, isto é, um congresso teórico com preocupante viés acadêmico, (tudo como resultado de uma inacreditável e nunca suficientemente explicada crise de administração), pequenos espaços e pequenas mostras como esta podem ser mais reveladoras sobre os caminhos da arte atual do que os mega eventos. Ou, pelo menos, podem funcionar com espaços alternativos (se é que essa palavra ainda faz algum sentido) ou espaços articuladores de tendências muito significativos, desde que, é claro, não sucumbam ao regionalismo idiotizante que paira sobre a teoria de que é preciso valorizar o que é da terra. Sábia e prudentemente, o Salão Paranaense rejeita esse caminho, preferindo investir na naturalmente polêmica trilha anti-provinciana, o que dá a ele um caráter mais cosmopolita; poderia acontecer aqui ou em São Paulo, aqui ou em Nova York. Por guiar-se por critérios de mérito artístico e inserção nas discussões da arte contemporânea feita no mundo, não por opções regionais, o Salão, por sua própria natureza, estava condicionado ao critério de alguns curadores e pensadores sobre arte, os quais (Artur Freitas, Simone Landau, Daniele Vicentini, Isaac Camargo e Josoé Francisco Alves), é preciso que se diga, encararam seu trabalho com uma coragem e tirocínio admiráveis.
Nada prova melhor esta afirmação do que a opção por Dudi Maia Rosa como alicerce da exposição e a escolha de um quadro eclético de artistas, com trabalhos intrigantes e questionadores, explorando limites recém-descobertos entre a fotografia, a arquitetura, a literatura, o cinema, e as artes propriamente plásticas.
É muito claro que a definição curatorial não foi feita a partir do critério rígido do ''conceito'', nostalgia política que tem sua origem no nefasto ''centralismo democrático'', de tantos e tão funestos serviços prestados à vida democrática e contemporânea. Recusando as algemas do conceito único, tirano, pré-einsteiniano, a exposição se abre para uma exploração mais despojada das possibilidades diversas pelas quais transitam as idéias artísticas nesse mundo que sobreviveu à Era Picasso, à Grande Revolução Wahrolniana, ao minimalismo e a tanta incompreensão teórica, mas que, contra todo ranço ferruginoso dos nostálgicos vangoguianos, picassianos e outros classicistas nostálgicos, continua surpreendendo, intrigando e dizendo mais sobre essa nossa tão caótica e conturbada sensibilidade contemporânea do que muitas outras manifestações humanas.
São 7 artistas do tal Mercosul, 10 nacionais e 11 selecionados entre mais de 600, dos quais apenas dois do Paraná. Na maior parte, são artistas jovens, sendo Dudi aquele com uma história mais enraizada na história recente das artes plásticas brasileiras.
E são exatamente eles, os três ''poemas'' de Dudi que, com sua elegância cristalina, tiram-nos do universo do frenesi cinematográfico, televisivo e urbano no qual vivemos imersos e do qual acabamos de sair quando cruzamos o carrinho de pipoca com bacon, entramos no Museu e subimos as escadas, parecendo nos dizer para relaxar os olhos, acomodar o nervo ótico e descansar a mente em suas ondulações de luz, rigorosamente controladas pela textura polímera dos elementos que a compõe. De posse dessa inteligência adquirida do olhar, que a obra de Dudi nos fornece, estamos preparados para derivar em direção a qualquer um dos quatro ângulos que a exposição nos apresenta, nos dois andares; estamos preparados para aceitar o amplo espectro de caminhos que nos serão abertos; estamos preparados para o novo, o diferente, o diverso; pois se há uma palavra que pode definir o que iremos encontrar nos quatro espaços, esta palavra é diversidade.
Dois trabalhos, em particular, exemplificam essa diferença e complementaridade entre o que o vemos na exposição: as obras de Rodrigo Braga (do Recife) e Juliana Stein.
Rodrigo é divertido e paródico, com acento claramente tropicalista em sua voluptuosidade antropofágica. Se Jeff Walls arrisca-se em um embate com os clássicos de Manet e Renoir, Tony degladia-se com muita leveza e bom humor com um modelo mais próximo de nós, e, portanto mais estranho a nós (essa é uma marca da cultura contemporânea: tudo que nos é próximo também é o que menos compreendemos; compreendemos exatamente o que Van Gogh transmite mas olhamos com desconfiança para nossos contemporâneos); em outras palavras: Fábio dialoga, ousadamente, com o Coiote de Beyus.
Juliana Stein, por sua vez, aponta em outra direção, preferindo o upper-cut muito bem colocado, que nos atinge em cheio quando penetramos na sala reservada para as três fotografias 1 x 1, enigmáticas e esfíngicas, prontas para nos decifrar em nossas mais recônditas e escondidas ambiguidades. Há uma revelação não revelada no trabalho de Stein, que se recusa a trabalhar com o conforto do digital, preferindo as dificuldades e a pureza da Hasselblind, o que faz o trabalho fotográfico transitar no limite com a pintura e a poesia.
Mas há mais, muito mais. As curiosas estampas de Carina, os experimentos foto-plásticos de Tony Camargo, coisas que gostamos, outras que rejeitamos. Mas o que há, acima de tudo, pairando sobre todas as salas dessa exposição, é um desejo irreprimível de expressão contemporânea, conturbada, conflitante, incompreensível, às vezes, mas genuína. Um desejo que não se intimida diante das grandes obras do passado e encara as precariedades do presente como um estímulo para continuar criando, pesquisando e inventando caminhos onde só parece haver um beco sem saída.
Mas, afinal: não é isso o que nos faz humanos?

Antônio Cescatto, de Curitiba

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