Durante muitos séculos, a maternidade, no ocidente, sempre esteve associada a dois aspectos primordiais: sacrifício e sublimação. Ou abnegação, ou santidade. E o modelo era inquestionável, talvez porque ser mãe, para as mulheres, confundia-se com seu próprio destino: elas se tornavam mães demasiado cedo para os padrões contemporâneos e continuavam a ser mães pelo resto da vida. Nesse sentido, a diminuição no número de filhos já foi uma grande transformação. Mas não foi a única.
  Ao mesmo tempo em que mudava a atitude diante da maternidade, a economia e as mulheres também mudavam. E aquele que era um território exclusivo dos homens passou a ser cobiçado e dividido pelas mulheres, que passaram a investir em carreiras e a colocar como prioridade, antes (ou junto) com a vida maternal, a vida profissional. Foram as primeiras mulheres a encarar, pensar, planejar e questionar a maternidade. As primeiras a pesar todos os aspectos implicados na decisão de ter ou não ter filhos. Muitas delas passaram a ser mães quando suas mães já eram avós.
  Então surgiu Lionel Shriver.
  Lionel foi o nome masculino escolhido por Margaret Ann Shriver quando iniciou sua carreira literária. Filha de um pastor protestante, ela morou em Nairobi, Bancoc e Belfast e instalou-se na Inglaterra, onde se casou duas vezes, vivendo, hoje, com um certo Jeff, baterista de jazz.
  Lionel é radicalmente frugal. Só anda de bicicleta, não come em restaurante, não gasta e – detalhe importante: aos 50 anos, nunca teve filhos.
  Lionel Shriver escreveu vários livros. Nenhum deles obteve qualquer repercussão. Então ela escreceu um livro que mudou tudo. Chama-se ‘‘Precisamos falar sobre o Kevin’’.
  O livro surgiu nas resenhas como o relato de uma mãe cujo filho havia sido um serial killer scholar, como o de Columbine. A uma leitura apressada, poderia parecer que se tratava de uma história confessional. Mas não é. Trata-se uma obra de ficção.
  Lionel imaginou uma personagem, Eva Katchandoriun, empresária do setor de viagens, responsável por guias de viagens para classe econômica, cujo trabalho a obrigava a viver cinco meses do anos viajando pelo mundo e avaliando albergues e restaurantes, casada com Franklyn, um produtor de cenários para cinema, cujo filho, Kevin, numa quinta-feira, com 16 anos, matou 7 colegas e uma professora de inglês da sua escola.
  Poucas páginas bastam para mostrar que não se trata do que parece. Apesar de manter alguns aspectos de ‘‘thriller’’, o que o livro fala é de uma outra coisa: ele fala de Lionel Shriver e sua dúvida entre ser ou não ser mãe. Passando longe das noções de abnegação ou sacrifício, ou do tradicional ‘‘a coisa mais maravilhosa da vida’’, o que Lionel nos mostra é uma pessoa de carne e osso, vivendo todos os medos da maternidade e nos falando com lucidez impressionante sobre cada um deles. Ela encara um dos maiores tabus da nossa cultura, aquele sobre o qual não é permitido falar, de frente. E o que é mais curioso: faz isso com um estranho e surpreendente senso de humor.
  Se você, cara leitora, tiver coragem, leia. Se você, caro leitor, for realmente homem, está desafiado. Lionel Shriver não é brincadeira. Ela tocou na ferida. E não tirou o dedo.

Antônio Cescatto, de Curitiba

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