Davi Letterman é, de fato, engraçadinho. Jô Soares, especialmente quando entrevista alguém que detesta, é um sarro. A Hebe, toda serelepe, é uma gracinha. Mas nada supera essa glória da televisão de vanguarda brasileira, criada, estrelada e produzida aqui mesmo, por gente da terra, paranaenses como nós: a Escolinha de Governo.
Toda terça, não contem comigo pela manhã. Adiem reuniões, transfiram compromissos. Pois terça-feira é dia de acompanhar e se divertir com as bazófias de mais um encontro professoral entre sua excelência e seus aplicados alunos. Despontando na primeiríssima fila, nosso ex-prefeito Rafael Greca merece, sem dúvida, a medalha de honra ao mérito. Pois é comovente o zelo jesuítico com se aplica a copiar e anotar cada palavra do que é dito.
O espetáculo começa quando o microfone é passado para sua excelência. Ocorre, aí, um fenômeno curiosíssimo. Como se quisesse amortecer a carga dos vitupérios que se seguirão, o professor segura o microfone com rara delicadeza, fazendo uma pinça entre a ponta do indicador e do polegar, criando um material de primeira para interpretação de analistas freudianos. Começa, então, o descarrego.
Quando achamos que todos as escatologias possíveis da língua portuguesa já foram utilizadas contra seus inimigos (todos, no caso), sua excelência se supera. Depois dos tradicionais ''canalhas'', ''bandidos'', ''ladrões'', ''safados'', ele nos apresenta um novo clássico: ''Vamos dar pau na cachorrada''. Que delícia.
Terminada a sessão inicial, entra uma das partes mais esperadas do programa. É quando algum secretário, secretária, presidente de órgão estatal ou coisas afim, sobe ao púlpito para fazer uma exposição detalhada das ''conquistas'' do governo. Não que a exposição seja, particularmente, divertida. É um saco, na verdade. Slides sobre slides com quilômetros de números. Engraçado e divertido mesmo é quando a câmera flagra a platéia. A tentativa desesperada de conter os bocejos, a resistência heróica em evitar o fechamento inexorável das pálpebras, a luta para driblar o cochilo que se insinua, sorrateiro, por entre as dobras da atenção, cria momentos que nem Golias seria capaz de imaginar. Pois imaginem a situação terrível dos pobres alunos ali presentes: a câmera não está apenas filmando o acontecimento. Ela está registrando o comportamento de cada um deles. E qualquer movimento de desatenção pode ser usado contra o aluno mal comportado.
E é uma ginástica de caretas, um exercício de atenção que nos diverte por horas hilariantes. Como tudo que é bom, porém, o programa acaba. Mas não lamentemos. Ainda temos mais 3 longos anos de programas semanais. E pelo talento da moçada, não faltarão momentos simpsonianos de escatologia e diversão. Palmas pra eles.

Antônio Cescatto, de Curitiba

mockup