Nunca compreendi muito bem quando me diziam que, nos Beatles, o gênio era John Lennon, enquanto que a Paul Mccartney era reservado o papel de ‘‘compositor inspirado de música bonitinhas ’’. Qualquer disco que eu ouvisse, qualquer música que me tocasse, mostrava exatamente o contrário: no cruzamento da Inglaterra elizabetana de Paul com a Inglaterra joyceana de John (sem falar na magia de George e Ringo) estava o encanto do trabalho.
  Mas eram os anos 70, e naquela época contava muito a posição política, os interesses intelectuais. E enquanto John era o condutor das passeatas, o contestador, o herói romântico por excelência que aquela época aspirava, Paul tornava-se vegetariano e caminhava, pouco a pouco, para se tornar Sir Paul.
  Mas essa não era a única coisa que eu não entendia.
  Sempre me espantava, também, que, se a John Lennon era dedicada uma reverência quase religiosa, a Yoko Ono fosse destinado um ódio surdo, invisível e burro. Ela era a ‘‘responsável’’ pela dissolução do sonho, uma espécie de Medéia moderna que, infiltrando-se subversivamente nas hostes sagradas da congregação Beatles, houvesse insuflado a discórdia e a dissídia.
  A última visita de Yoko Ono ao Brasil trouxe isso novamente à tona. Uma onda irresistível de rejeição assomou nas vozes dos ‘‘sensíveis’’ ao verem as obras da artista japonesa. Pouco importaram as obras em si. Impressionantes foram as reações. Daniela Thomas disse ter entendido porque teve vontade de matar Yoko aos 4 anos. Arnaldo Jabor assinou embaixo a declaração, definindo a japonesa como ‘‘víbora fálica e castradora’’.
  Mas e John Lennon, onde ele fica em tudo isso? Seria ele, afinal, apenas um ‘‘bobinho’’, seduzido por uma aranha nipônica e enredado em suas teias, tendo, mesmo assim, como diz Jabor, produzido grandes discos? Ou será que ele foi apenas um homem em crise, aos 30 e poucos anos, esgotado pela dinâmica enlouquecedora do show business, em pane criativa, que encontrou uma mulher estranha, diferente, de bunda caída, mas por quem se apaixonou, mulher que foi capaz de entender (e ajudar a desenvolver) aspectos da personalidade daquele homem a caminho da maturidade (ou do suicídio, ou do assassinato) que ninguém, até aquele momento, havia entendido?
  Quanto mais o tempo passa, mais somos surpreendidos pela incrível capacidade de uma época tão libertária como os anos 60, em criar sua própria nostalgia em tão pouco tempo. E com a grande dificuldade que gente do maior quilate, como Jabor, tenha em entender que o mundo, definitivamente, não é redondo. E que, por isso, nem tudo sai conforme nossos planos. Ou, o que é pior, conforme nossos sonhos.

Antônio Cescatto, de Curitiba

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