EXPRESSO
Quando foi lançado, em 1998, o livro ''Imposturas intelectuais'' causou um grande alvoroço nos meios ''bem pensantes'' ''por sustentar uma tese profundamente polêmica: a de que os autores conhecidos como pós-modernos haviam estruturado seu pensamento sobre bases inteiramente falsas. O que tornava o livro ainda mais incômodo era o fato de que os postulantes da tese eram dois cientistas de alto coturno, cujo domínio dos mais diversos campos da ciência (física, matemática, biologia e outros) dava a seus argumentos uma solidez perturbadora.
Entre os principais visados pelos ataques de inusitada virulência dos dois cientistas, encontrava-se o psicanalista francês Jacques Lacan, considerado por eles, mui justamente, como o iniciador dessa vertente ''obscurantista'' (diziam eles) do pensamento contemporâneo. Tentavam demonstrar que Lacan, assim como todos os outros que o sucederam (Kristeva, Baylard, etc) criaram um pensamento hermético utilizando-se de conceitos da ciência que não compreendiam claramente. Em Lacan, por exemplo, denunciam o uso da topologia no terreno explorado por Freud como um exercício de virtuosismo destinado única e exclusivamente a impressionar seus leitores.
Comentando isso com meu amigo Gilberto Rosemann (rabino e um dos poucos viventes que assistiu conferências de Lacan em 69, em Paris) ele contou-me uma história curiosa. Em uma das conferências que assistiu, Lacan falou por quase duas horas sem que Gilberto, atordoado, entendesse uma só palavra, chegando a perguntar a um amigo em que língua o psicanalista estava falando. Mas foi o único, pois todos pareciam muito compenetrados no que ouviam. Ao final da palestra, Lacan olhou para a platéia e disse que todos ali eram uma impostura, pois ele havia falado numa linguagem que inventara e ninguém havia questionado seu discurso. Feito isso, pegou uma garrafa de vinho, derramou o vinho em um cinzeiro e bebeu, para espanto da platéia.
Isso nos leva a pensar que, mesmo que nossos dois cientistas estejam completamente certos na denúncia ao ''culto pela dificuldade'' iniciado por Lacan, não é possível negar a beleza da aventura intelectual do nosso pensador, nem que seja somente pela denúncia das impostutras discursivas do nosso tempo. E não deixa de ser natural que o próprio autor dessa denúncia fosse, a uma certa altura dos acontecimentos, denunciado por sua própria ''impostura''.
Antônio Cescatto, de Curitiba





