Leva uma vida pacata e modesta. Mora no Ahú, a poucos metros do Bom Retiro - território onde vive desde os seus 6 anos - e trabalha a menos de um quilômetro de casa, podendo conceder-se o luxo de almoçar com mulher e filha quase todos os dias. Sua única excentricidade é, munido de caneta, alguns caderninhos e livros, escapar para um café e para alguns minutos (às vezes horas) de escrita, leitura e diversão.
Não tem, pelas viagens, o mesmo fascínio que tem, por exemplo, um dos grandes amigos, cujo destino está sempre entrelaçado entre um aeroporto e outro, uma nova descoberta arqueo-turística a cada mês. Trafega, há muitos anos, pelas mesmas ruas, circula pelas mesmas quadras, procurando rotas alternativas, é verdade, e algum recanto rafaelita no alto das Mercês, no Cabral, no Juvevê ou Boa Vista quando deseja se isolar. Existem muitos lugares assim na Curitiba onde ele vive. São praças, parquinhos e ruas - atalhos, becos, esquinas - que ninguém visita. E poucos passam por elas. Perfeitos, portanto, para o exercício do solilóquio, da conversa infinita com seus ''seres imaginários'', com todos os tipos, com seus ''Attackings Beings'' e com seus ''Resisting Beeings'', como definiria seu ídolo, Gertrude Stein.
Seus amigos são amigos de muitos anos, de muitos atritos e de muitas alegrias comuns. Outros vieram acrescentar-se a estes com a chegada da mulher, os ''amigos do casal''.
Descobriu, nos últimos anos, particularmente depois da chegada da filha (que teve em idade de avô), algo interessante: o tempo é uma substância maleável; ele não comanda; nós é que temos de tomar conta dele.
Explicando melhor: não existe falta de tempo. Por muitos anos, achou que era isto que o impedia de fazer aquilo que queria, de ler, produzir o que, no seu íntimo, sabia que teria de produzir. Passou, então, a acordar mais cedo. Primeiros às 8. Depois às 7. Então às 6. Até que chegou a um número redondo: 5 da manhã. Das 5 às 9, escreve, lê e trabalha. Cabeça limpa, sobriedade total. Assim produz o que tem de produzir, sem interferências.
Sempre que o amigo itinerante reaparece, no intervalo entre um aeroporto e outro, liga com a pergunta clássica: ''E aí, quais são as novidades?'' Não, não há novidade nenhuma. A não ser aquelas minúsculas, ínfimas, com que é tecido o cotidiano: um café da tarde, uma ida à mercearia, uma conversa sobre futebol, outra sobre política, um sorriso da filha, uma briga com a mulher, uma volta com a mulher, um passeio, uma frase, um poema e etceteras, milhares de pequenos etceteras.

Antônio Cescatto, de Curitiba

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