EXPRESSO
A uma certa altura do ensaio para o show com a Orquestra Sinfônica do Paraná - que aconteceu dias 22 e 23 de setembro, no Guairão - o vocalista Ivo Rodrigues, do Blindagem, sentou-se na platéia para ouvir as primeiras músicas, escritas e orquestradas. Surpreendido e emocionado com o que ouvia, o legendário vocalista comentou (segundo nos conta o gozadíssimo ''second guitar man'' do grupo, Paulo Juk):
- Poxa, eu não sabia que a nossa música era tão bonita!
A verdade, Ivo - e é preciso que ela seja dita - é que nenhum de nós que, de uma forma ou de outra, acompanhamos a história do Blindagem há tantos anos, sabíamos. Somos todos curitibanos, afinal (e não falo só dos curitibanos que nasceram aqui - curitibanos típicos também vêm de fora), temos uma relação de amor e desconfiança com o que nossos conterrâneos fazem.
Por anos a fio o Blindagem perambulou pelos bares e casas de show da cidade sem que lhes déssemos a real dimensão que possuíam. Era o grupo que a gente via em um final de noite, que nos divertia e que merecia dos proprietários de casas noturnas uma quirera que só com muita boa vontade poderia ser chamada de cachê. Foi preciso que um maestro italiano, de formação erudita e coração pop, viesse reger a orquestra sinföônica da cidade e visse, aqui em Curitiba, a possibilidade de realizar um sonho antigo de adolescência, muito difícil de ser realizado na Europa - isto é, produzir uma ópera rock, um grande concerto pop -, para que o milagre acontecesse. Para que, pela primeira vez, o Blindagem mostrasse e pudesse ser visto como aquilo que realmente é: um capítulo a parte na história da música brasileira e do rock, com sua deliciosa e original fusão de rock, música country, baladas e poesia repleta de matizes sulistas.
Quem esteve no Guairão em qualquer uma dessas noites iluminadas sabe do que eu estou falando. Perto do que aconteceu ali (tremei, sofisticados de plantão!) o Cirque du Soleil pareceu um espetáculo de virtuoses, lindo, mas virtuosístico. Com a orquestra colada na platéia, deslocando-se a profundidade em favor do corpo a corpo e do impacto sonoro e físico (uma idéia genial), Ivo, Paulinho ''Mãos de Guitarra'', Paulo Juk, Alberto Rodriguez e Rubén Romero, sob a batuta do grande e intenso maestro Alessandro Sangiorgi cercados por um mar de violinos, violoncelos, flautas, vibrafones, bumbos e outras finesses sinfônicas, proporcionaram momentos de glória para os amantes da música, da poesia, da arte, da amizade, e para os fãs da hstória, da tenacidade, da garra e do grande talento dessa ''gurizada'', todos já no alvorecer dos 50 anos. E o que é mais incrível: fizeram isso com aquelas velhas músicas que nós, assim como o Ivo, sempre gostamos, mas não imaginávamos capazes de atingir uma tal intensidade poética.
Enquanto saía, eu pensava na música do Leminsky (por que não fazer o mesmo com elas, maestro?): ''Eu vi a lua no mar, baby/Maior do que um copo de leite''. E ao olhar os rostos dos amigos que encontrava na saída, eu tive a certeza: não era o único.
Antonio Cescatto, de Curitiba





