Em tempos catastróficos em terra, ar e mar, em que o governo liberal perde seus escrúpulos e o fascismo é sua forma apropriada, conviria voltar à Escola de Frankfurt e reaprender com os mestres iluminados de razão. O princípio da dominação, que inicialmente repousava na força bruta, tomou, com o tempo, um caráter espiritual. A voz interior do ex-escravo é a encarnação do novo senhor, cuja preocupação é dominar, manipular desejos recalcados, malograr as massas atrasadas, maceradas pela indústria cultural. O povo é protagonista de natureza recalcada, vítima da razão instrumentalizada.
Sem o apoio do povo, jamais os governos teriam logrado conquistar o poder. A Escola de Frankfurt se ancora no iluminismo racional, no marxismo e enceta críticas à sociedade de consumo, que tem como alvo a reificação do homem alienado, fetichizado, mera mercadoria, mero apêndice das máquinas e da tecnologia, massa de manobra do poder.
Contra isso se insurgem Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin, entre outros, que subvertem o sistema de ''perfeição'' do status quo, colocando como ponto de partida a experiência da razão, única capaz de resistir às ilusões dos sentidos, aos erros da ciência, ao delírio da alucinação.
Povo, nas palavras de Robespierre toujours malheureux (sempre sofredor) e por isso ''virtuoso'', é a entidade que se opõe ao rei e à aristocracia. (Se hay gubierno, soy contra).
Depois da execução de Luís XVI o povo passa a ser constituído diferentemente. Como não pode mais se opor ao rei e aos nobres, se oporá aos magistrados, aos funcionários, à autoridade, ao estado, ao governo.
Povo designará os que são governados, em oposição aos detentores do poder. Povo se oporá aos ricos, aos opulentos, aos possuidores de renda e capitais. Povo é a massa dos pobres oposta aos ricos.
Povo não pode ser uno e um, mas constituído de elementos heterogêneos e interesses conflitantes. O único fator de sua coesão será a oposição a. Essa concepção inspirou a crítica à política que toma a questão da técnica como dominação. Discute-se a democracia e o modus operandi da mídia.
A televisão, para os frankfurtianos, é uma das formas de ataque aos direitos humanos, pois oblitera a autonomia do pensamento e inflaciona a mente de preconceitos e adestramento da consciência de maneira subliminar.
A mídia transmite uma cultura agramatical e desortográfica, a imposição das ''pesquisas'' e do mercado com o ''diferencial'' do acúmulo acrítico que nos impede de imaginar. É oposto da obra de pensamento que é a obra cultural que se pensa, se vê e reflete sobre a informação, a propaganda e a imagem publicitária, televisivas e outras.
A mídia, tudo converte em entretenimento: guerras, genocídios, greves, cerimônias religiosas, catástrofes naturais e das cidades, obras de arte, obras do pensamento. Assim, a mídia realiza uma caça à polissemia, pela demagogia da facilidade - fundamento da legitimidade do sistema de comunicação.
A cultura de massa é uma psicanálise ao revés, é regressiva. Não é nem cultura, nem é produzida pelas massas: sua lei é a novidade, mas de modo a não perturbar hábitos e expectativas, a ser imediatamente legível e compreensível pelo maior número de expectadores e leitores.

José Aparecido Fiori, jornalista

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