Curitiba chora a Ana Cláudia

Quem sabe parássemos de chorar e transformás- semos nossas lágrimas em luta efetiva
  A Ana Claudia poderia ser minha filha; ou sua. Sua irmã, sua namorada... ela era uma de nós, habitante de nossa tão querida Curitiba.
  Todos nós choramos por ela: por sua vida tão brutalmente abortada; choramos pelos seus pais.... e como choramos.... só quem passa por esta dor, sabe do que estamos falando. E ainda saber que sua filha sofreu tanto... realmente, não consigo imaginar o tamanho da revolta deles. Um filho que se vai é uma família que desmorona e que tem que passar anos juntando os pedaços, aqui , acolá, para nunca mais ser a mesma. Já vi este filme....é um filme de terror, no qual a gente entra e parece não sair nunca mais. A dor muda de jeito, com o tempo, mas não acaba nunca.
  Choramos por seus irmãos, por seu namorado, seus amigos, seus colegas de faculdade, que viveram tão cedo e tão de perto, uma tragédia tão grande. Choramos por seus assassinos, tão jovens, e tão perdidos e tão brutais em seu comportamento. Frutos de quê?
  Choramos por uma sociedade injusta, que a propaganda do governo insiste em dizer que está maravilhosa, pois não sei quantos milhões recebem uma cesta básica. Mas os filhos destes milhões são obrigados a estudar, para poder receber este benefício? Os pais estão sendo preparados para alguma atividade profissional? Não... estamos só criando um curral eleitoral. Estaríamos ajudando de verdade se estivéssemos condicionando o recebimento do benefício a uma permanência dos filhos nas escolas; a uma preparação dos pais para o trabalho...
  Estamos providenciando escolas em tempo integral, para tirar crianças da rua e tentarmos educá-las para que não se tornem este tipo de seres, que nem podemos denominar humanos, como os assassinos da Ana Claudia?
  Estamos investindo efetivamente na segurança, para que nossos jovens possam usar a cidade com tranqüilidade, sem serem seqüestrados nas portas das academias ou nos portões de suas casas?
  Ruas, praças, jardins, são chamados ‘‘espaços urbanos de uso público’’... como usá-los, se estão se tornando pontos de marginais e drogados, capazes de qualquer maldade contra as pessoas?
  Chorarmos, choramos todos: de tristeza, de pena da Ana Cláudia e de sua família, mas choramos também de indignação, pelo descaso com o ser humano... pelo que está se tornando Curitiba, de uma cidade pacata, um local eminentemente perigoso...
  Choramos de revolta por todo imposto que pagamos e pelo nenhum serviço público que recebemos de volta, na nossa segurança, na nossa educação, na nossa saúde.
  Os médicos estão fazendo greve... você não faria? Eles estudam uma média de 10 anos e recebem do SUS a fantástica quantia de 4 reais por consulta. Choramos pelo nosso Brasil...
  Quem sabe parássemos de chorar e transformássemos nossas lágrimas em luta efetiva, pela ética, pela aplicação efetiva do dinheiro público em SERVIÇO PÚBLICO? Parece que já é mais do que tempo...
Maria Elisa Ferraz Paciornik, empresária


Adolfo tem um problema

Adolfo já cortou-lhe compulsoriamente a chave da casa. ‘‘Lá não entra!’’
  Cabelo aparado a gilete e bigode cuidadosamente coifado – o que lhe empresta um inconfundível style Village People – Adolfo divide o almoço caseiro depois dos serviços de informática. E nos brinda com histórias da mãe.
  É uma velhinha muito simpática, dizem todos. Mas, para o pobre Adolfo, tornou-se sinônimo de estorvo e definição de problema. Não que ele não a ame – ama, sim, claro, é sua mãe. Mas não esconde que gostaria de vê-la passar uns, digamos, seis meses, no Rio de Janeiro, ou outro tanto em casa de parentes, em São Paulo – porque ela os tem em todos esses lugares. E não lhe faltam recursos – não deixa de observar –, tendo em vista a generosa aposentadoria deixada pelo marido. Mas o interesse da doce velhinha é um só: atazanar Adolfo.
  Liga-lhe no meio da tarde para perguntar sobre o dinheiro que havia deixado sobre a estante. ‘‘Você pegou, não pegou ?’’
  Acusa-o ininterruptamente de roubar o que é dela; na rua, chega a dizer para estranhos que o filho ingrato bate na mãe, o que deixa Adolfo em situação constrangedora. ‘‘Afinal, ’’ ele pergunta, ’’ em quem você acha que uma pessoa vai acreditar: numa velhinha inocente e vitimada ou num filho cruel?’’
  Adolfo já cortou-lhe compulsoriamente a chave da casa. ‘‘Lá não entra!’’. Medida cautelar – e necessária, diga-se de passagem –, pois a velhinha parece não conhecer o significado da palavra limite: se investida da posse da chave, invade o apartamento do filho, troca-lhe os quadros de lugar, fuça-lhe estantes e guarda-roupas, livrando-se daquilo que considera inadequado para o filho.
  E não pensem que isso começou agora. Na juventude, a hiperbólica senhora fuçava o quarto do adolescente, mexendo em tudo que encontrava e jogando fora ‘‘revistas de mulher pelada’’, como ele nos diz. Depois de alguns anos, e de vários empregos perdidos inexplicavelmente, Adolfo não tem dúvidas: as dispensas súbitas tinham origem em telefonemas da ‘‘pobre mãezinha ’’, que o acusava, aos chefes enternecidos, de maus-tratos e sórdido tratamento.
  ‘‘Dá pra entender at钒, ele semi-suspira, ‘‘a atitude do meu pai. ’’ O velho Ferreira foi protagonista da história clássica: uma saída para comprar cigarro sem passagem de volta. Oito meses depois, ‘‘papai ’’ ligaria do Amapá, contando história da viagem por toda América do Sul, de carona ou de ônibus.
  Resumindo, então, Adolfo, assim como o pai, aspira desesperadamente a uma folga, um respiro, alguns meses de tranquilidade, qualquer coisa, enfim, que, definitiva ou temporariamente, o afaste do que ele chama de ‘‘grande problema na sua vida.’’
  Mas a doce velhinha é reticente. E a quem lhe pergunta porque não viaja, porque não sai, porque não visita parentes, amigos, outro estado, outro país, faz questão de afirmar, com ares de mãe assoberbada e sufocada pelas preocupações filiais: ‘‘Não posso abandonar o Adolfo. Ele não sabe viver sem mim.’’
Antônio Cescatto, publicitário

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