EXPRESSO
A Poesia das letras da MPB
Poucas culturas populares podem se orgulhar de um representante musical tão rico como a brasileira. Tão grande e magnética que a primeira associação feita no exterior ao nome do Brasil é com a nossa música, junto ao futebol, naturalmente. E as letras merecem um enfoque particular, tema do meu próximo livro, com o título ainda provisório de Frases Musicais.
Tenho pesquisado e anotado as letras mais poéticas, e as mais engraçadas de tudo o que foi gravado na Música Popular Brasileira. Mas isso é trabalho para toda a vida, uma vez que os compositores continuam produzindo, sinal que felizmente, e prazerosamente, terei muito o que fazer.
Aí vão algumas Frases Musicais selecionadas:
Coragem não está no grito
nem riqueza na algibeira
e os pecados de domingo,
quem paga, morena,
é segunda-feira
Paulo Vanzolini, em Capoeira do Arnaldo, na voz do bando da Macambira
Num relógio é quatro e vinte
no outro é quatro e meia
é que de um relógio pra outro
as horas vareia
Adoniram Barbosa, em Tocar na Banda, na voz de Adoniram Barbosa
Bahiano não nasce
Bahiano estréia
Moraes Moreira, em Estação Bahia, na voz de Moraes Moreira
Meu tesouro é uma viola
que a felicidade oculta
se a vida não dá receita
eu não vou pagar a consulta
Zeca Baleiro em Dindinha, na voz de Ceumar
Esse pobre navegante
meu coração amante
enfrentou a tempestade
no mar da paixão e da loucura
fruto da minha aventura
em busca da felicidade
Paulinho da Viola, em Coração Leviano, na voz de Paulinho da Viola.
Morena, minha morena
tire a roupa da janela
vendo a roupa sem a dona
eu penso na dona sem ela
Popular, adaptação de Tom Zé, em Morena, na voz de Tom Zé
Deixe em paz meu coração
que ele é um pote até aqui de mágoa
e qualquer desatenção, faça não
pode ser a gota d'água
Chico Buarque, em Gota D'água, na voz de Chico Buarque
Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver
e a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite do meu bem
Dolores Duran em A Noite do Meu Bem, na voz de Dolores Duran
A esperança dança
na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha
pode se machucar
João Bosco/Aldir Blanc em O Bêbado e o Equilibrista, na voz de Elis Regina
Queixo-me às rosas
mas que bobagem, as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti
Cartola, em As Rosas Não Falam, na voz de Beth Carvalho
Cheguei na beira do porto onde as ondas se espaia
as garças dá maia volta, e senta na beira da praia
e o cuitelinho não gosta, que o botão da rosa caia
Ai, ai
Tema recolhido por Paulo Vanzolini e Antonio Xandó, em Cuitelinho, na voz de Maria Marta.
Tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor
hoje pra você eu sou espinho
espinho não machuca a flor
eu só errei quando juntei minh'alma à tua
o sol não pode viver perto da lua
Guilherme de Brito/Alcides Caminha/Nelson Cavaquinho em A Flor e o Espinho, na voz de Nelson Cavaquinho.
Morena se acaso um dia
a tempestade te apanhar,
não foge da ventania,
da chuva que rodopia,
sou eu mesmo a te abraçar
Toquinho/Paulo Vanzolini em Boca da Noite, na voz de Márcia
Ô mulata assanhada
que passa com graça, fazendo pirraça,
fingindo inocente
tirando o sossego da gente
Ataulpho Alves em Mulata Assanhada, na voz de Elizeth Cardoso, com Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro.
Sabão, um pedacinho assim
A água, um pinguinho assim
o tanque, um tanquinho assim
a roupa, um montão assim
pra lavar a roupa da minha Sinhá
pra lavar a roupa da minha Sinhá
Nilo Chagas/Monsueto Menezes/João Vieira Filho em Lamento da Lavadeira, na voz de Marlene.
Ai, ai, ai Izaura
hoje eu não posso ficar
se eu cair em seus braços
não há despertador
que me faça acordar
Herivelto Martins/Roberto Roberti, em Izaura, na voz dos Demônios da Garoa.
Meu Deus eu ando com o sapato furado
tenho a mania de andar engravatado
a minha cama é um pedaço de esteira
E uma lata velha que me serve de cadeira
João da Baiana, em Cabide de Molambo, na voz de João da Baiana
Te chamei de querida
te ensinei todos os auto-reverses da vida
e o movimento de translação que faz a terra girar
te falei que o importante é competir
mas te mato de pancada se você não ganhar
Dinho/Bento Hinoto, em Uma Arlinda Mulher, com os Mamonas Assassinas.
Amor lá no morro
é amor pra chuchu
as rimas do samba
não são ''y love you''
e esse negócio de alô
alô boy, alô Jone
só pode ser conversa de telefone
Noel Rosa em Não tem Tradução, na voz de Aracy de Almeida
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa
e não posso pegar
tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Chico Buarque em Pra Quando o Carnaval Chegar, na voz de Chico Buarque
Sonhei toda a noite e pensei
nos beijos de amor que te dei
Ioiô meu benzinho do meu coração
me leva contigo, não me deixa mais não
Luiz Peixoto/Marques Porto/Henrique Vogeler em Linda Flor(Ai, Ioiô), na voz de Isaura Garcia.
Então, isso é só um pedacinho da boa poesia da nossa MPB. Aguardem o livro!
Edu Hoffmann, poeta e jornalista natural de Jacarezinho, radicado em Curitiba desde 1974.





