EXPRESSO
Haveria, no caos que se segue, tempo para pensar em algo?
O dia transcorre como outro qualquer de nossas vidas: reuniões agendadas, encontros assumidos, um beijo de despedida ou nenhum beijo, planos para o fim de semana ou para as próximas férias, frustrações mal resolvidas e expectativas mal elaboradas, pequenas felicidades e grandes alegrias; num segundo, estamos no saguão do aeroporto lotado, a esperar pela chamada do vôo, torcendo para que, dessa vez, ele não esteja atrasado, a entregar nossos bilhetes para a mocinha uniformizada e a procurar, entre malas e ansiedades, nosso lugar no mar de assentos.
Como sempre, ignoramos a comissária de bordo em seu balé explicativo, aceitamos ou recusamos o lanche de bordo, observamos a nuvem de telhados miseráveis a anunciar São Paulo e nos preparamos para desatar o cinto e ligar os celulares pois o vôo aproxima-se do seu final e isso nos leva imediatamente a iniciar a elaboração mental de todos os próximos passos que iremos tomar - a fila do táxi, a reserva do hotel, o trânsito de fim de tarde na Kubitschek, o jantar no restaurante (qual deles, o japonês ou o italiano?), as ligações que precisamos fazer (será que deu certo o negócio em Londrina, como estará a febre da Aninha?) -, quando, logo que o avião toca o solo, um solavanco nos assusta. Sentimos o chão e as paredes tremerem quando a aeronave retoma o caminho; ouvimos o barulho surdo e estridente de algo que nos lembra freios, e logo o tumulto nos desperta da nossa inconsciência, fazendo-nos encarar em segundos aquilo para que verdadeiramente nunca estivemos preparados, por maiores que fossem os nossos medos, por mais previdentes que parecessem nossos seguros de vida.
Haveria, no caos que se segue, tempo para pensar em algo - aquela queda de bicicleta na infância, o primeiro beijo na esquina, um doce, um susto, um sorriso, um santo, uma palavra que dissemos ou que deixamos de dizer -, ou nos perderíamos apenas no indefectível nada, mártires da época onde vivemos, do país que, teimosamente, não abandonamos, e dos compromissos que assumimos com valentia e coragem, achando que responsabilidade é uma coisa que vale a pena, mesmo quando ela não nos gere beneficio imediato, mesmo quando gere, isto sim, ônus para nossas carreiras profissionais e políticas? E voamos através da rua, nesse avião que se desgoverna, nesse Titanic que se acaba, certos de que, com ele, também queimam e se acabam - meu Deus, foi preciso isso para que acontecesse! - os restos de um mundo antigo, um mundo de demagogias e falsas promessas, de interesses partidários e sinecuras estatais, e que viver longe desse mundo de boas intenções e grandes fanatismos vai ser muito melhor para os filhos que vamos deixar de ver e para os netos que, agora, nunca veremos.
Antônio Cescatto, publicitário





