Praça do Batel: abrir ou não abrir, não é bem esta a questão

Que o Ippuc centralize o planejamento urbano de novo e retome seu papel de ser a ‘‘Sorbonne’’ do Juvevê

  Não fossem as conotações políticas, podemos dizer que a discussão sobre a abertura da Praça do Batel é um saudável exercício de cidadania; é importante que a população se manifeste, que a administração explique seus motivos. O que me preocupa é que percamos nosso Norte; aquele que adotamos em 1971, quando da implantação do Plano Diretor de Curitiba; nosso mote era ‘‘O Homem é a medida de todas as coisas’’.
  Esta foi a verdadeira razão de nosso sucesso. Se alguém se lembra, os modelos de cidade, nos anos 60 eram São Paulo, Tóquio, Nova York. O automóvel era a expressão mais sensível da tecnologia e as cidades se organizavam em função dele. Aqui, o rumo foi oposto: fechou-se o centro para pedestres, houve um grande incremento no transporte coletivo, com o expresso, depois o ligeirinho, depois os entre-bairros, a tarifa social, os terminais; abriram-se parques, preservaram-se árvores (não vamos pensar na erva de passarinho, por favor) a memória urbana, investimos nas escolas e ganhamos uma excelente qualidade de vida. As cidades cresceram a uma velocidade inimaginável, de lá pra cá. A quantidade de automóveis extrapolou qualquer expectativa. Aquelas que se organizaram para os carros, não foram felizes: lutam contra um trânsito caótico, uma poluição enorme.. Não deu certo, pudemos constatar na seqüência.
  Nós aqui, não estamos livres destes dissabores. O trânsito já está complicado e quando tenho que fazer alguma coisa no Batel, já me dá uma enorme preguiça... está sempre engarrafado, tudo por lá.. Acho que erramos na taxa de ocupação do solo, provavelmente. Gente demais, carro demais.
  Se devemos abrir ou não, até me parece que sim, deve desafogar o caos que reina por lá. A Prefeitura pode reorganizar a praça e dar até mais vida útil ao espaço. Mas o fundamental é não perdermos nosso foco ‘‘o homem é a medida de todas as coisas’’. É mais que urgente um novo ‘‘up grade’’ no nosso transporte coletivo, fazendo com que ele se torne confortável, eficiente e prático: são estas condições é que levam um profissional a deixar seu carro na garagem, como fizeram aqueles da década de 70.
  Além disto, e sobretudo, naquela época, houve um enorme investimento nas cabeças pensantes da Prefeitura, melhor dizendo, do Ippuc. Todas nossas soluções foram pensadas e implantadas por gente daqui; eram profissionais do porte de um Rafel Dely, Carlos Ceneviva, Jaime Lerner, Abrão Assad, Alberto Paranhos, Angel Bernal, Zeca Maluceli, Jose Gandolfi, Osmar Akel, Euclides Rovani, Osvaldo, Frik e tantos outros.
  É fundamental darmos à nova geração, responsável pela Curitiba de 2010, 2020, a mesma formação de excelência que eles tiveram. Será nosso melhor investimento: que o Ippuc centralize o planejamento urbano de novo e retome seu papel de ser a ‘‘Sorbonne’’ do Juvevê; só assim vão sair de lá novos e brilhantes planos que nos preservem o que já pudemos trazer até aqui: nossa qualidade de vida.
Maria Elisa Ferraz Paciornik, empresária


Relaxe e goze

Já passou da hora de a Infraero tomar providências. Ou a providência é o monopólio que nos oferece

  No último dia 23 de junho, estava no aeroporto de Guarulhos (SP) quando vi um grupo de homens, em sua grande maioria, obesos. Melhor dizendo, barrigudos. Todos, provavelmente mais de dez, usavam uma camiseta com a frase ‘‘Turma da Traíra’’. Não os conheço, mas comecei a imaginar que turma poderia ser aquela, em pleno sábado à tarde, num aeroporto.
  A primeira coisa que passou pela minha cabeça: essa turma pelo menos uma coisa já está traindo, a estética. Quem trai alguém ou alguma promessa é chamado de ‘‘traíra’’. E, sem dúvida, os integrantes da turma traem a estética e não se preocupam. Afinal, nesses tempos de atrasos de aviões, estavam numa verdadeira competição: a de quem tomava mais cerveja.
  A camiseta não trazia nenhuma identificação de quem e de onde seriam, somente informa que existem desde 2003. Pelo próprio nome, uma segunda coisa me veio à mente: poderiam ser pescadores. Trata-se de um chute, pois não ouvi nenhuma mentira, suposta característica do pescador.
  O grupo possui uma sinceridade enorme. Assumem publicamente pertencer à ‘‘Turma da Traíra’’. Seria bom se alguns políticos também o fizessem. Não sei que turma é essa, mas deve ser um grupo de amigos e de gozadores.
  Gozadores porque estavam seguindo à risca o conselho da ministra. Se o avião atrasar, disse ela, ‘‘relaxe e goze’’. Gozando não sei se estavam, mas estavam todos relaxados. Mas, mesmo à vontade, não estavam completamente relaxados: queixavam-se da cerveja. Estava quente. No geral, os aeroportos são assim: comida fria, mal preparada e bebidas quentes.
  Nos aeroportos do Brasil, o atendimento de bares, restaurantes e farmácias é, em geral, péssimo. Motivo: existe um monopólio. Como pode uma lanchonete de aeroporto, onde mais se encontra classe média por metro quadrado, não trabalhar com cartão de crédito ou de débito automático? Isso ocorre, pelo menos, em Guarulhos.
  Devido a tal monopólio, os serviços em geral são ruins, a comida é a mesma, com poucas alternativas, e os preços são exorbitantes. Já passou da hora de a Infraero tomar providências. Ou a providência é o monopólio que nos oferece.
  Estou, como disse, esperando o avião, que está atrasado. Infelizmente, meu trabalho exige muitas viagens de avião – e a coisa não está nada fácil. Se recebesse pelo tempo de aeroporto, já estaria no caminho da riqueza.
  Dias atrás, demorei 32 horas para ir de Montevidéu a Brasília. Viagem que, num vôo direto, não duraria mais que três horas e meia. E a empresa cujo nome é gritado nos estádios nem sequer nos garantiu o direito à alimentação.
  Continuo no aeroporto, mas quem está um pouco melhor é a ‘‘Turma da Traíra’’. Estão relaxados, mas sem muito gozo, pois a cerveja está quente. Comecei e terminei este artigo, e nada do avião sair. Ah! Pela barriga, a ‘‘Turma da Traíra’’ é mesmo uma turma de pescadores.
Dr. Rosinha, deputado federal (PT-PR), vice-presidente do Parlamento do Mercosul

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