EXPRESSO
Morto aquém, não quero ninguém além
Não sou rico, digo não posso, não pago, mesmo se pudesse não quero virar cinzas em raro crematório caro
Morto, não quero companhia de ninguém além do aquém, quero ficar horto, amém. Meu desejo é abjeto, o despejo do meu dejeto no esgoto desde que encanado por mata ciliar, onde posso ouvir a cascata em foz, o som das cataratas, o silêncio catárticos das águas.
Não quero os olhos de lágrimas de amantes traíras, o rio de lágrimas dos parentes, o lamento dos inadimplentes, o choro gentil dos amigos. Meu rosto defumado está embaçado, não quero enxergar pelo visor as viúvas escabeladas por funérea gritaria, dêem calmante a essas indecentes, se gostarem, aguardente, pinga para os insones no guardamento.
Não quero inútil embalsamento para cadáver tão catinguento. Nada de funerárias honrarias, favores de oradores, candelabros de grossas velas, círios reluzentes, crucifixos prateados à cabeceira do caixão. Não quero roupas belas de gala em vão velório, coroas de flores, homenagem de vereadores, luto oficial decretado pelo prefeito.
Ah!, vão dizer: coitado, era um amor!, descansou..., os bons morrem cedo, ele foi um boêmio démodé, amante fora de moda, poeta quase perfeito. Não quero o viático do vigário, o sino do ângelus soando por mim, rezas fortes para me encomendar, ladainhas lacrimosas de réquiem, água benta borrifada, exéquias demoradas de crentes.
Não sou rico, digo não posso, não pago, mesmo se pudesse não quero virar cinzas em raro crematório caro. Ó galera, quero virar suco, sulcar a terra, brindar a cicuta na guerra quando o copo às mãos equilibristas trêmulas o torpe vinho amaro tomar, bêbado tombar em rastaquera rasteira!
Quando letal ficar, o toque médico-legal se fizer, me der morto finalmente, causa mortis stress, quero que o coveiro meu ex-vivo corpo desça fundo à terra vampira e flua serpente pelo verde vale. Massa finita, eis o que resta, dissoluta isca em abissal sepulcro iça, bóia ao faro dos pássaros..., são os despojos do meu ego consumatum est..., cest la vie..., eu fui como tu és, serás putrefeito.
Quero o carinho do anzol para me fisgar minhoca na boca do peixe, o zumbido das moscas a beliscar a pele de hematoma, o apetite da fome no céu da boca, o tártaro dos vermes a urubuzar famintos, varejando meu corpo decomposto em Cáucaso acorrentado, o fígado dilacerado em petisco no bico do corvo. Quero minha carapaça fora, minha alma dentro, transformado em uma única múmia disforme, horrenda, inerme, infame.
Oráculo de Delfos, vingança de Zeus, desgraça de Prometeu brincando com fogo, tragédia de Ícaro sem asas no olimpo. Ao me verem só sobrar vaidade ao vento, caveira descabelado, ossos insossos sem tutano amarelados, espinhas fósseis em comum fosso em ócio de ofídio, definitivamente extinto, sem função, defunto, apenas resquício-vestígio de diluída carcaça de tatu, lembrem-se, como tu, foi fantasma, tomou cachaça, amou voar ao sol com asas derretidas.
Quando tal dia chegar, será o indício de que apoquentado espírito evaporou-se etéreo somente vale semente, subiu alter Elias em cavalo alado bíblico, sumiu cafundó cósmico, apocalíptico desintegrado. Creio que não morri, só me encantei calado.
José Aparecido Fiori, escritor e jornalista
Animalização da nossa espécie
Na realidade os humanos são fracos e inadequados perante os outros animais
Os cientistas analisaram a estrela-do-mar e descobriram que ela não tem cérebro. Ela tem um anel nervoso ao redor da boca e um nervo radial que se estende para cada braço, suas células nervosas a tornam muito sensível, e não tem coração. Os cientistas não descobriram tudo sobre essa espécie, cheia de segredos.
De qualquer modo nós abençoamos nosso cérebro e a força do pensamento. Essa habilidade de pensar sempre nos traz orgulho, nos torna diferente dos animais. Nós dizemos sempre : O ser humano é o único animal que pensa! . Podemos nos questionar: Em que o desenvolvimento do pensamento humano beneficiou a humanidade na história? A resposta é clara: nas guerras, bombas, massacres, mortes...Sobre o desenvolvimento da tecnologia e da ciência podemos dizer que avançaram muito com novas descobertas, mas a bomba atômica é um produto desse avanço também. Avanços tecnológicos e científicos trouxeram consequências positivas e negativas. As conseqências negativas , por exemplo, são a poluição, o afastamento do convívio com a natureza, etc...
Sem pensar uma estrela-do-mar faz reprodução e caça seus alimentos, ingere aquilo que precisa, então, sem pensar, ela faz basicamente tudo que é necessário para viver. Podemos então deixar de abençoar a capacidade de pensamento. Na realidade os humanos são fracos e inadequados perante os outros animais, por exemplo, a habilidade natural como a capacidade de ver, ouvir, correr, pular, cheirar e a força física é maior nos animais. Nós humanos orgulhosos da habilidade de pensar, desqualificamos essas capacidades outras. Quando o ser humano escapou da relação com a natureza, fugiu da sua própria essência. Talvez os humanos devam evoluir novamente fazendo uma animalização da sua espécie, resgatando a forma de vida ecológica..
É verdadeiro que os animais têm uma conduta mais livre do que os humanos, por exemplo, não há tabus para eles, além disso, vivem em harmonia com a natureza enquanto os humanos a destroem. Os animais só tem instinto, dizemos ...mas quem vive com instinto vive mais livre do que quem baseia a vida no pensamento. A vida é a vida, se há instinto ou pensamento não faz diferença.
Escutei uma curta história sobre a estrela-do-mar: um homem andava na praia, e viu um pescador jogando coisas para dentro do mar, ele foi aproximando-se da cena e viu que o homem jogava estrelas-do-mar que estavam na areia . Ele perguntou: Por que você está jogando as estrelas-do mar para o oceano? O pescador que coletava uma a uma continuou jogando e respondeu: Para que elas continuem vivendo. O homem surpreso disse: Mas aqui estão inúmeras delas e você não vai conseguir jogar todas novamente para o fundo do mar. Se você jogasse elas todas, o que mudaria? . O pescador catou mais uma estrela e a jogou respondendo: Viu? Mudou tudo para esta!
Parte da humanidade esta fora do seu habitat natural. Dentro de nós, existem nossas estrelas-do-mar, e devemos atirá-las para o oceano que existe em nós também, retornando a nossa vida livre, e natural...
Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba





