O inferno são os outros

‘Quando pensamos em fazer algo, primeiramente pensamos na reação dos outros’

  Sempre eu escrevo sobre a vida, porém as pessoas não gostam de refletir sobre a essência de suas vidas. A maior parte das pessoas preferem esquecer e não ter consciência sobre o que vivenciam, preferem apenas viver. Eles esquecem o tempo e não o percebem. Caso eles percam suas memórias poderão pensar que vivem no jardim da felicidade. Entretanto, quem esquece sua vida não é semimorto, é totalmente morto. É mais morto do que um fóssil de 100 milhões de anos e até mesmo das pessoas enterradas na Igreja Escura da Capadócia, na sua solidão, com mais de 1.000 anos. É mais possível que os cadáveres levantem do que essas pessoas que não pensam sobre as suas vidas façam o mesmo.
  O filósofo e romancista francês Jean-Paul Sartre afirma que ‘‘O inferno são os outros.’’ A direção das nossas vidas são os outros quem têm, são os outros que definem o que podemos ou não fazer. Os outros são nossos conhecidos, eles constróem paredes entre nós e as outras pessoas. Durante toda a nossa vida fizemos sem querer fazer, não fizemos o que desejamos, geralmente. Quando pensamos em fazer algo, primeiramente pensamos na reação dos outros, infelizmente, nossos desejos não podem ser realizados a despeito dos outros. A maior parte das pessoas casam porque os outros querem, tem filhos porque os outros querem... por isso nossos sonhos nunca se realizam: Nossas vidas contêm as baladas do pesar! Nós levamos lenhas para o nosso inferno porque não reagimos para auxiliar os outros, a sociedade, o sistema do qual tanto nos queixamos.
  Sempre fazemos acusações, quando nossa situação vai piorando, começamos a fazer filosofia sobre isso: A sociedade, o sistema, os conhecidos, todos fizeram isso comigo! Nós não temos responsabilidade sobre a nossa situação. Assim somos porque queremos nos salvar desse pior momento da vida. Todas as razões são corretas, muitas vezes, mas estamos responsáveis também! O que fizemos para mudar a situação antes de ser o pior momento? Qual foi nosso esforço? Não nos esforçamos na verdade, pensamos que agimos corretamente, que tudo fizemos certo. Em cinco minutos podemos explicar todos os segredos do mundo, todas as histórias, e olhamos para os outros com superioridade. Entretanto, a explicação da vida não é um conceito suficiente. Terá que acontecer um aprofundamento no contexto da realidade da vida em conjunto com a explicação, tem que haver a percepção da natureza do ser humano e a essência da vida. Quando caímos na lama, ficamos patinando e entendemos que não é fácil sair! A realidade da vida nos ensina, nos joga contra a parede muitas vezes. Todo mundo leva sua lenha para seu inferno, concordo com isso! Criamos o inferno para nós, porém queimamos os outros também nesse mesmo inferno.
  Todo mundo queima no inferno que criou. Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba


El Pulgarcito de América

‘Tanto a astúcia como a persistência do povo salvadorenho é inquestionável’

  Estou num vôo da Taca, indo de Washington para San Salvador. Assim que entro no avião, chama-me a atenção o rosto das pessoas e a característica dos viajantes: a maioria tem cara de índio. Viajei de São Paulo para Washington pela United Airlines, onde a maioria era branca, com traços ocidentais e seu respectivo padrão de beleza.
  Já no vôo da Taca, além das características indígenas, havia muitas crianças. Também diferenciava o comportamento dos passageiros: maior liberdade para falar, bolsas no chão do corredor, mães trocam e reviram fraldas, roupas e comidas infantis. Tudo com a característica ‘‘balbúrdia’’ latino-americana.
  Na comparação, a diferença não é só essa: no avião da United, havia comida (jantar) e bebida de ‘‘graça’’. No da Taca, sanduíche e um pouco de frutas, porém com uma taxa de US$ 5. Não é só esse o contra-senso: a comida, item essencial, era cobrada. Já a bebida (refrigerantes, vodka, rum e uísque), era de ‘‘graça’’. Provavelmente as bebidas devem ser ofertas das indústrias, que primeiro viciam e depois, a partir do vício, exploram.
  Num desses roteiros turísticos que são encontrados em qualquer hotel – em geral com mais fotos do que textos –, li que El Salvador, por ser um pequeno país e ter um povo astuto e persistente, é conhecido como ‘‘El Pulgarcito (diminutivo de polegar) de América’’. Creio que tanto a astúcia como a persistência do povo salvadorenho é inquestionável, pois sempre lutaram contra a opressão e a favor da liberdade. Para comprovar o fato basta conhecer a recente história da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN).
  Dizem os próprios salvadorenhos que também são conhecidos pelo sorriso fácil. Isto me levou a perguntar: como e por que sorrir com facilidade se a pobreza, a miséria e a falta de perspectiva são grandes? As ruas da capital, San Salvador, são tomadas por vendedores e vendedoras ambulantes. É impossível, em muitas delas, caminhar pelas calçadas.
  Na sua população, principalmente feminina, é perceptível um alto número de obesas, e a razão é a mudança do hábito alimentar. Se antes a cultura alimentar era à base do milho e mandioca, agora são as lanchonetes americanas, tipo fast food, que dominam. Tanto que, quando se procura algum restaurante, logo indicam a você alguma lanchonete com seus hambúrgueres e outros que tais norte-americanos.
  A dependência econômica dos Estados Unidos é total, tanto que a moeda é o dólar americano. Também o desemprego é alto, e o sonho de todo jovem salvadorenho é ir para os Estados Unidos, onde são rechaçados e deportados. Quase todo dia chega um avião de deportados.
  Para agradar o Tio Sam, El Salvador é o único país da América Latina que forneceu soldados para a invasão do Iraque e, mesmo assim, não gozam de respeito pelo governo norte-americano. No mês de janeiro, chegou a El Salvador um avião de deportados dos Estados Unidos. Junto, na mesma condição, veio o corpo de um soldado salvadorenho morto no Iraque.
Dr. Rosinha, médico, deputado federal (PT-PR),
vice-presidente do Parlamento do Mercosul

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