E é Curitiba de novo

  Gente, vamos combinar: o verão deste ano, com o final apoteótico da canícula do mês de março, foi um verdadeiro suplício para nós aqui em Curitiba, não é mesmo?
  Um calor absurdo, sem chuva, que sofrimento! É verdade que a gente não sabe se vestir para verão, saindo sempre com o famoso casaquinho, para ver se esfria no final da tarde, e o guarda chuva na bolsa, torcendo para chover um pouco, mas que nada, era sol e calor, calor e sol. E o mais inédito: noite e calor, calor e noite. Nossas casas, impávidas, viradas para o norte, recebiam aquele sol implacável todo o dia. Um mísero ventilador é o máximo de aparelhagem anti-verão, que a gente possui por aqui. Na verdade, não somos do ramo calor. Os quartos e uma sauna, davam no mesmo. O ventilador ventava um ar quente, com jeito do deserto de Sahara. A opção era sauna ou pernilongo. A bem da verdade, nunca fui lá, mas é o que a gente imagina.
  As roseiras, coitadas, estavam minguando e a gente sem coragem de gastar água com elas. Também não dá para perder a consciência ecológica, não é? De bom, somente alguns sorvetes da cidade, maravilhosos. Que a gente experimentava muitas vezes por dia, todos os dias e só.
  Aí, um belo dia, ou melhor, uma bela noite, choveu!!! Nunca pensei que pudesse ficar tão empolgada com aquele barulhinho de chuva. Trovão, então, uma glória total. Aquele maravilhoso cheiro de terra molhada foi incomparável. Achei lindo o cinza do céu e podia continuar daquele jeito um bom tempo. As roseiras amanheceram felicíssimas. Era notória a alegria delas. E nossa.
  Até que então, sem mais, de repente, o arzinho da tarde ficou fino e nem dava para acreditar. O quê? Outono? Ninguém aqui pensava que isto poderia nos acontecer de novo. Bênção de Deus. Embaixo das ervas de passarinho, que até floriram com o calor, dava para ver as folhas das árvores, ganhando cor de outono.
  E, sem mais, a também abençoada Argentina nos encaminha uma frente fria, bem fria.
  Despenca-se do alto do armário a roupa de inverno, o acolchoado, põe tudo no sol e vamos buscar lenha para a lareira, cozinhar o pinhão e aprontar o vinho que o inverno chegou. Quem diria. O coração aperta por aqueles que não têm com o que se aconchegar, a gente compartilha o que tem.
  E curte o barulhinho da lenha queimando na lareira e sai de manhã, falando macias palavras de fumaça e vamos para o Barigüi, que está lindo, todo enfeitado de branco para comemorar a volta da ‘‘nossa’’ Curitiba. É ela, de novo, para nossa alegria.
Maria Elisa Ferraz Paciornik (empresária)


(des)Protetor solar

  O cheiro deste protetor solar me traz indefensavelmente a memória do último verão. Outras paisagens, agora. À minha frente refletido no espelho do mesmo guarda-roupas, um rosto que se distancia implacavelmente do que um dia foi. E isso não é literatura, é constatação do futuro que chegou. Amanhã é hoje.
  Mas voltemos à memória do que me trouxe a mim, à memória do que fomos, a esse ontem que me trouxe agora também o cheiro do mar, mesclado ao cheiro de teu suor, conforme o vento... e também o sabor, as cores, a textura, a temperatura me vêm identificáveis numa sensação litorânea hoje quase melancólica. Mas o que me chega, confesso em frente a esta tela e não no espelho, não é o sol, o mar, a areia, o vento, o morro, a praia da Luz... o que me chega é você, sou eu, éramos nós. Pelo olfato da memória. Via cardíaca. Para não romantizar. É janeiro, no entanto. É verão de fato. A estação é a mesma, assim como a marca do protetor. Tudo é. Eu com imunidades outras, apesar das mesmas imagens que me remetem e ainda surpreendem.
  Termino de passar o creme protetor no rosto que agora se tornou. Visto um conjunto cinza, abro algumas portas e parto, esperando que algum cheiro súbito me assalte, trazendo não mais você, mas eu. Num assalto perfeito do inesperado.
Nena Inoue (diretora de teatro)

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