EXPRESSO
Cinqüentões
Sempre tive a impressão de ter nascido na época errada. Um constante sentimento de inadequação me acompanha desde que me entendo por gente. Ao longo da vida tenho encontrado pessoas que, em algum momento, acabam comentando algo semelhante. Porém, uma pergunta que nunca faço e que não lembro de ter ouvido é: afinal, que idade você gostaria de ter? Parece um questionamento óbvio a ser feito quando alguém diz que não se sente no mesmo tempo dos outros.
Porém, acho que o incômodo causado por observações deste tipo como assim você não queria ter nascido na época em que nasceu?! impede que a conversa prossiga de forma natural e que sejam feitos questionamentos. A reação mais comum é mudar de assunto o mais rápido possível, partindo para comentários como ah, que coisa...mas, você assistiu ao jogo de ontem? ou hum, interessante...será que vai dar praia no feriadão? e por aí vai.
Fugir de temas desconfortáveis, digamos assim, é absolutamente compreensível. Até pouquíssimo tempo eu mesma tentava compreender o motivo desse sentimento, não conseguia responder a uma questão elaborada pela minha própria mente deslocada no tempo.
A resposta chegou até mim numa noite fria do final de agosto de 2006, no tardio inverno curitibano, em um ambiente onde havia calor humano, bom vinho, boa comida e boa música. Quase tudo de que um ser humano adulto precisa para sentir-se feliz. Pelo menos aqueles três ali sentados à mesa comigo se mostravam plenamente satisfeitos. Em meio àqueles sorrisos, àquela euforia juvenil pelo fato de estarem fora da cidade onde moram, àquela conversa descontraída e, ao mesmo tempo, recheada de boas recordações despertadas pelas canções tocadas ao vivo, concluí que nasci duas décadas depois! Sim, descobri, finalmente, que queria ter 50! Fiquei aliviada por concluir isso da melhor forma possível, admirando a amiga e os amigos, típicos cinquentões cariocas, vivendo de modo simples, alegre e, acima de tudo, com muita liberdade.
Diferente dos brasileiros da minha geração, que estão na faixa dos 30, eles não passaram os primeiros dez anos de vida sob a ditadura muitos morreram na juventude lutando contra o regime, é verdade, mas, era conseqüência do fato de não se renderem. Enquanto nós, coitados, crescemos abobalhados assistindo à tv e achando normal aquela mensagem da Censura Federal antes do início de cada programa! Eles sentiram, experimentaram, cantaram, fumaram, beberam, vestiram, ouviram, tocaram, enxergaram até os olhos doerem tudo o que, de um modo ou de outro, significava a paixão pela vida, o amor pelo outro, por si mesmo, pelo planeta. Eles foram adolescentes e jovens em um mundo sem Aids, sem carro com air bag, sem câmeras de vigilância, sem McDonalds, sem café descafeinado! Eles correram riscos. Sabe lá o que é isso?
Enfim, é por essas e outras que, enquanto os trintões estão aqui, tropeçando em culpas, fazendo malabarismos para criar os filhos, perdendo noites de sono com medo da escalada da violência urbana, perdidos diante de si mesmos e de um mundo inacreditavelmente louco, eles estão lá, esperançosos. É como se a esperança inicial, aquela da primeira infância, nunca tivesse sido esquecida, apesar dos problemas, das perdas, das decepções, dos sacrifícios. Em bom carioquês: aos 50 você não vai ser feliz, você já é.
Luiza Xavier, jornalista carioca radicada em Curitiba
Até breve, meu travesseiro
Cio do inverno, pensão semivazia, meu travesseiro duro faz frio, os olhos da noite, o som do silêncio, o gosto insosso, o olfato sem cheiro, horas lentas, o sono que vem, o sonho tem asas, o corpo fantasma, não sei o que daria para adormecer neste langor e alçar vôo no alvorecer. A serotonina perfila invisível, à sombra do corpo, à sanha do sonho de reaver tudo sem nada haver possuído, a possuir apenas o colchão de capim, o pano, a lanugem que absorvem o pressentimento da nudez me cobrindo espuma.
A surdez irreversível nem dá bola ao gemido do arvoredo nos quintais das casas assombradas ornadas de lambrequins, ao débil mover das folhas secas dos laranjais, mamões, samambaias, galhos podres, ninhos e ovinhos de passarinhos a cair vítimas de recente tempestade, e o vento sutil sopra o espírito imbricado de neurotransmissores, embutido no halo do fantasma ectoplasmado.
A faculdade de evocar imagens faz com que os nervos exalam a aura do fantasma interior. A consciência de esquecer, ser esquecido, ajuda a lubrificar a engrenagem da alma triste a aturar atraída à tortura quixotesca de insistir contra o monstro invisível que se move ilimitado. Posso sentir que estou sincronizado com o universo inteiro através de contínuas visões cósmicas.
Aqui no além medievo onde habito, o apocalipse é agora, as trombetas tocam, a cidade não é santa, justa e bela, o povo chora e mora em solo que ondula suaves colinas de favelas em declínio, os rios não são mais cristalinos, jorram e murmuram pasmosa espuma, as pedras soltas, os torpedos e os buracos representam um risco ao transeunte das calçadas.
O espaço urbano termina logo ali ao pé da serra, nos terminais de ônibus sem ônibus a pé, a plataforma vazia, a moça prostituta no biombo do ponto, a estátua do delinqüente de tocaia na praça à solidão das flores. O status quo cotidiano resume-se aos ruídos urbanos, nada de novo a não ser o piscar persistente dos faróis no front, a silhueta dos montes se emoldurando aos relâmpagos da noite, os vastos pantanais sepultados por pistas, pontes, espigões que arranham nuvens, denigrem o brio de excelsos pinheiros, a se esparramarem nos capões do céu. Basta-me a aragem, um perfume, um sussurro, um sorriso, qualquer mudança no ambiente, para alterar todo meu jeito de ser camaleônico.
Por que não estás aqui em meu travesseiro?
Despertam-me os apetites lascivos, o fervor sanguíneo de extraordinária violência. O céu em estrelas chama a inebriar-me posto que és chama. Tua sombra emoldurada de natural beleza e o tom fosco da tua tez se harmonizam à luz do abajur.
Vem, te espero..., todo minuto que passa é irremediavelmente perdido, tudo está pronto, isto é, nada está pronto, salvo a vontade pungente de recebê-la. Terei toda a paciência do mundo, toda indulgência inesgotável para te esperar. Tenho continuamente ante os olhos a visão da tua boca de carne, por onde sai o pensamento coletivo, o sexto sentido, a palavra libido, os sexos acasalados, o ser encarnado.
Ah, se estivesse aqui na erma selva de pedras escabrosas que banham o asfalto, onde se padece o desconforto da vida!, se olhasse a minha cama descoberta, esculachada, o altar espaçoso onde me ofereço ao travesseiro duro, ao colchão torto, à coberta rasgada, ao lençol fantasiado de corações flechados, que se encarregam de prover o esperado sono justo!
Entretanto, não durmo, já matei o sono..., então embale, cavalgue..., até breve, meu travesseiro.
José Aparecido Fiori, escritor





