EXPRESSO
Suavidade
Durante o quase inevitável passeio de domingo no shopping tenho (mais um) impulso consumista e paro diante de um quiosque de cosméticos. Troco três ou quatro frases com a morena impecavelmente maquiada como conseguem congelar essa expressão de estou pronta para ser descoberta por um olheiro? e decido levar um brilho labial cor de boca seja lá o que isso significa, afinal, cada boca tem uma cor.
Quase satisfeita por ter conseguido gastar menos de 20 reais para saciar minha repentina fome por bobagens, bugigangas e afins, recebo da moça uma sacolinha plástica cinza e uma frase que me deixou inquieta. Coloquei aqui a amostra de um novo perfume. É uma fragrância bem suave, bem mãe disse ela, sorrindo e desviando o olhar para o garotinho ao meu lado.
Fui andando de volta para casa levando a sacola sem graça e uma interrogação: que história é essa de que mãe é sinônimo de suavidade? Eu não sou suave! Aliás, creio que esse seria o último adjetivo para classificar alguém. Um vinho pode ser suave, uma música pode ser suave, um toque pode ser suave. Pessoas, definitivamente, não são suaves. Muito menos mães.
Obviamente, a moça, ao fazer o tal comentário, reforçou (ainda que sem a menor noção ou intenção de fazê-lo) o senso comum de que mãe é boazinha, doce, amorosa, carinhosa, generosa, compreensiva, sábia, calma e ostenta sempre aquele sorriso tranqüilo. É quase uma santa ou deusa. É um ser de outro planeta, acima do bem e do mal. Senti um arrepio subir pelas costas ao concluir que aquilo confirmava isso, a idéia tenebrosa de que as mulheres ascendem a uma condição privilegiada quando se tornam mães. Como chegamos a esse ponto? E já estamos quase no fim da primeira década do século 21, quando tudo seria fácil, fantástico, prático e fabuloso como naqueles desenhos dos Jetsons!
Recordo a cena em que minha mãe corria atrás de um ladrão em plena Rua da Alfândega, tamanco na mão, indignada por quase ter tido a carteira furtada (estou falando dos anos 70, não repitam isso!). Nada suave, ainda bem. Penso nas mães que conheço. Pessoas batalhadoras, honestas, éticas, amigas, mas nada suaves. Lembro das Mães da Praça de Maio, das Mães de Acari, das Mães da Cinelândia. Das mães que têm as fotos dos seus rostos transtornados estampadas nos jornais para ilustrar a tragédia urbana brasileira de cada dia. Das mães que, sem opção, trancam os filhos no barraco e saem para trabalhar no asfalto, muitas vezes, cuidando dos filhos de outras mães que estranha pós-modernidade são trancadas em escritórios por horas a fio. Não há espaço para suavidade nesse mundo, querida moça dos cosméticos. Ao menos não para este tipo de suavidade, que sugere passividade, conformismo, falta de atitude, deslocamento da realidade, ausência de desejo, de individualidade sou mãe, sou uma santa, isso me basta!
Parece que esses ecos do passado insistem em nos perturbar. O que fazer senão assumir mais esse desafio? Tentar, ao máximo, fazer com que nossas crias alcancem a vida adulta sendo pessoas de verdade, que compreendam as dificuldades e os prazeres da vida; que consigam se importar com o outro e cuidar de si mesmas; que enfrentem os insucessos de cabeça erguida e também saibam valorizar as conquistas; que possam valorizar o lugar que ocupam neste planeta e, claro, que não esqueçam de pedir por favor e dizer obrigado. Se possível, com uma voz por que não? suave.
Luiza Xavier, jornalista carioca radicada em Curitiba
Café da manhã crioulo
Ouvindo a Rádio Educativa, em Curitiba, muitas vezes tenho agradáveis surpresas, encontros com vozes conhecidas, interpretando canções também conhecidas de maneira absolutamente nova, com algo de inesperado, um trinar de voz, uma força antes ausente. Canções que ganham um pigmento outro, como Pavão Misterioso, numa versão primorosa de Ney Matogrosso, amparado por um arranjo grandioso, como um hino, uma ode ao pássaro, dando-lhe vida e movimento ao ritmo da melodia.
Outra deliciosa casualidade foi escutar Verônica Sabino cantando Peito Vazio (que já é linda com Nelson Gonçalves). Essa cantora, de voz amanteigada, só deixou mais bela a canção, abusando de um vibrato notável. Falando em vibrato, não dá pra deixar de citar o da Marisa Monte, o da Gal, magistral, o da Vânia Bastos... Esta, aliás, cantando Dindi, mereceria uma crônica à parte, tal é a precisão pra não dizer perfeição de sua colocação vocal. Mas uma de minhas maiores felicidades foi escutar de repente no meio de um trânsito um tanto caótico da manhã curitibana Cesária Évora (que eu nem sabia que se chamava Cesária Évora), uma cantora do Cabo Verde, presenteando o ouvinte logo cedo com uma serenata crioula. Quando me dei conta já estava escutando uma canção, extremamente melodiosa e bela, chamada Bo e Di Meu Crecheu (você é o meu amor, em crioulo), que só vim a saber depois, ligando para a rádio assim que cheguei ao trabalho.
O que ia me intrigando mais e mais, depois de já me haver ganhado a melodia, era a seqüência de palavras, tão familiar aos ouvidos e tão estrangeira ao entendimento. Parecia minha língua, logo não parecia mais; meia palavra eu entendia, a outra metade aquela que viria para completar o sentido e mitigar minha ânsia de compreensão era sílaba imprevista, um tropeço, uma descontinuidade. Dias depois, comprei o CD: Cesária é negra, gorda e tem um dos olhos completamente estrábico, linda! Quanto às letras..., bem, constam em crioulo e em inglês, e a gente vai se virando com a tradução do inglês para entender um pouquinho dessa língua excêntrica que é o crioulo. Enfim, a voz de Cesária naquele início de dia foi como acordar com café na cama e degustá-lo ainda meio dormindo, embalada por um resto de sonho, cosmopolita, de sabor português, de alma africana, de coração brasileiro.
Claudia Cavalheiro Ortiz, escritora





