EXPRESSO
De pernas para o ar
Outra Semana Santa se passou, nem tão santa como as semanas da minha infância e juventude. Fim de outra Quaresma, também não como as de outrora. Não se trata de um lamento, mas de uma constatação de como o mundo está virado, conforme alguns, de pernas para o ar.
Antigamente, nem tão antigamente assim, não se comia carne na Quaresma, às sextas-feiras se jejuava e todos os sábados à noite era rezado, no mínimo, um terço. Por ser um dos poucos que sabia ler, era eu um rezador de terços.
Durante toda a Quaresma não se fazia bailes, e as festas eram parcas. Aliás, no sítio não tinha festa. Os bailes terminavam à meia-noite da Terça-Feira de Carnaval para a Quarta de Cinzas, e só voltavam a existir a partir da meia-noite do Sábado de Aleluia para o Domingo de Páscoa.
Na Quaresma, baile era pecado. Durante esse período, muitos homens sequer cortavam as barbas. Para nós, crianças, ver o vizinho ou o tio todo barbudo era razão, no mínimo, de curiosidade. Hoje, meu Deus, tudo está de pernas para o ar.
As Semanas Santas eram semanas de oração, jejum e confissão. A Sexta-Feira da Paixão era um dia no qual na roça ninguém trabalhava. Todos, na parte da tarde, subíamos à carroceria do caminhão, mais tarde tivemos um jipe, e íamos para a cidade participar da procissão da paixão, morte e enterro de Jesus. Era a Via Sacra.
Nós, crianças, ficávamos tão compenetrados e tão condoídos com o sofrimento de Jesus que acreditávamos que aquilo tudo estava ocorrendo naquele momento. Hoje, tudo está de pernas para o ar.
As crianças sempre acreditam no mundo que vêem. Aliás, acreditam também naquilo que não vêem - em fantasias. Lembro-me de uma pequena história que um amigo ateu me contou. Anos atrás, ele foi passear na Lapa numa Sexta-Feira Santa. Lá, assistiu com sua família à procissão do enterro de Jesus.
Um de seus filhos, o mais velho, perguntou o que era aquilo e quem era o homem que estava sendo enterrado. Como bom ateu, que conhece a história da vida de Jesus melhor do que muitos cristãos, contou ao seu filho quem foi Jesus Cristo. Tempos depois, com seu filho, visitando a casa de um amigo, ele se depara com um Jesus crucificado na parede. Seu filho, ainda com dúvidas, perguntou-lhe: pai, esse é aquele homem que morreu e foi enterrado na Lapa?
Toda essa cultura de oração e responsabilidade religiosa (jejuar, não comer carne, etc) encontrei-a diluída quando vim morar em Curitiba. Ela estava presente em alguns grupos e comunidades religiosas.
Vindos do interior, tínhamos uma outra cultura. Pela própria falta de informação e conservadorismo, mantínhamos a tradição da Quaresma. Tradição que era e é questionada nas grandes cidades, pois nelas sofre a influência de outras culturas e dos meios de comunicação. Influência que, para conservadores e tradicionalistas, é o mundo de pernas para o ar.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal
Devemos a Escola de Música ao Hermeto Pascoal
Em 2004, fui convidado por Ivanir Bortot, que era diretor da Gazeta Mercantil, para entrevistar Hermeto Pascoal. Lá fui eu empolgado e com uma idéia fixa na cabeça. ''Vou propor ao Hermeto, se ele não quer fazer uma escola de música em Curitiba'', pois ele mora aqui já há algum tempo. Dito e feito. Juntamo-nos no apartamento do Ivanir e a partir de 14 horas, esperamos ansiosamente pela entrevista. Quando ele chegou, fiz uma saudação um pouco desencontrada, próprio de quem se encanta, e lasquei a exclamação: ''Pensei que Deus não existisse, mas agora tenho certeza que existe!''
Ele também ficou um pouco desconcertado, mas prontamente se dispôs a encarar a entrevista. E lá começamos com perguntas daqui, perguntas dali, o Ivanir com indagações mais de cunho jornalístico, eu buscando saber mais do músico e do ser humano. Até porque, quando em 1973 ele lançou o se primeiro ''bolachão'', vim eu para Curitiba para comprar, pois soube que era uma novidade intrumental. E lá fomos nós, varando a tarde querendo saber tudo. No meio da entrevista, perguntei: Hermeto, o que achas de você montar uma escola de música em Curitiba?
Ele achou uma ótima idéia. Bem, perguntas pra lá, perguntas pra cá, a entrevista acabou às 21 horas com um bom chá, biscoitos e doces. Na mesma semana, o Bortot entrou em contato com pessoas do governo do Estado e a partir dali, foram inúmeras reuniões - mais de 20. Houve interesse e empenho por parte de membros importantes do governo. Montou-se então a entidade jurídica com CNPJ e tudo, e com o nome: Escola de Música Universal Hermeto Pascoal, com definições de funções para cada membro do grupo que participou desde o começo. Quando estava tudo certo, com local definido e tudo, houve alguma coisa que emperrou o andamento e parou.
Portanto apelo à cidade de Curitiba e ao governo do Paraná, que retomem essa idéia que por mim foi lançada, pelo engrandecimento da cidade, dos músicos e da música que se faz aqui e desse grande brasileiro que se chama Hermeto Pascoal. Talvez agora ele até tenha desistido. Mas é só consultá-lo e convencê-lo novamente, de que ele tem muito a ensinar ainda e talvez aprender alguma coisa também. É uma lástima se perdermos essa chance única de viabilizar um espaço musical importante, que engrandecerá o Paraná e o Brasil no mundo todo, com a colaboração desse mago da música universal.
Guêgo Favetti, músico autodidata-cantor e compositor





