EXPRESSA 1

1º de Abril de 1964

Estações de rádio são silenciadas e povo comemora com buzinaço

O Rio de Janeiro ferve. E não é de calor. Depois de uma semana em que a revolta dos marinheiros havia sacudido a ainda capital federal, depois que o discurso de Jango apoiando os revoltosos havia provocado convulsões no conspirante Clube Naval, o chacal Carlos Lacerda - governador da Guanabara - reúne-se com o calvíssimo governador mineiro e o sassaricante governador paulista, além de ponderáveis setores dos altos comandos do exército, para dar forma ao movimento revolucionário que se iniciara no dia anterior com a ''heróica'' resistência no Palácio da Guanabara, reação nervosa contra o temido ''levante comunista'' anunciado em inflamado discurso por um obscuro general de nome Castelo Branco. Às 12h45, João Goulart chega ao aeroporto Santos Dumont em seu automóvel negro e embarca no Viscount da FAB, em direção a destino incerto.
Nas ruas de Copacabana, depois que as estações de rádio do governo são silenciadas, o povo comemora com buzinaço e chuva de papel picado a chegada da revolução que finalmente acabaria com a baderna; no silêncio da noite, reúnem-se as células, traçam-se contra-ofensivas e começam a se efetuar as primeiras prisões.
No Vale do Anhangabaú, em São Paulo, uma cruz vinda de Jerusalém é recebida por mais de um milhão de católicos. Aviões soltam flores sobre o povo, que grita ''Viva o Brasil!''
Cassius Clay, o Mohamed Ali, prepara-se para mais uma luta onde vai defender o título mundial, o Simca Chambord é a nova sensação automobilística e Brigite Bardot, depois de mais um período de férias tropicais, declara seu amor pelo país. ''É aqui que eu quero viver'' - e a Manchete da semana completa: a 650 metros de altitude, em um apartamento confortável sobre a Guanabara, cercada pela mata virgem e com uma deslumbrante vista para o mar. Provocada pelos repórteres, a musa francesa não se recusa a dizer ''Barrá da Tijucá'', nem o delicioso e já característico ''bo-ni-ti-nhô'', que encanta a todos.


Antônio Cescatto, publicitário






EXPRESSA 2

Um mês sem Lala... sem o Irmão Albano

Uma mulher e um homem. Ambos com o olhar no presente. Abertos ao mundo

Dia 28 de fevereiro foi uma data que ficou marcada, por alguns eventos, que tem tudo a ver com a vida. Logo pela manhã recebo um telefonema de um amigo me comunicando o falecimento da Lala Schneider e que uma emissora de televisão pretendia fazer uma entrevista comigo, pois eu a dirigi em seu último espetáculo teatral: Tempo de Amar....
Logo em seguida, recebo outro telefonema me comunicando do falecimento do Irmão Albano, um grande educador e um dos pioneiros na fundação da PUCPR, onde trabalho como diretor teatral há 19 anos. Lala e Irmão Albano, pessoas que conheci em momentos diferentes mas, que tiveram uma importância vital em minha história. Os dois tinham em comum o gosto pela vida, pelo trabalho e pelas realizações. Dois empreendedores, uma da arte, outro da educação.
Conheci Lala Schneider em 1987, após recuperação de seu aneurisma, no Teatro Guaíra, onde fiz sua co-direção no espetáculo O Tempo e os Conways. Reconheço uma mulher cheia de vitalidade, de idéias e em nenhum momento me parecia que ela estava se recuperando deste episódio difícil. Em 1988, sou contratado pela PUCPR, para dirigir o Grupo de Teatro Tanahora, onde passo a conhecer o Irmão Albano. Um homem simples, silencioso, mas de uma grande atenção por tudo que acontece à sua volta.
Sem contar nos encontros de final de ano, na PUCPR, na casa do Sr. Teófilo, onde o Irmão Albano gostava de participar. Estar com os amigos, torcer pelo Corinthians, tomar sua cervejinha, fumar o seu cigarro e olhar a juventude com olhos de educador, este era o homem Albano, o Professor José Cordún.
Assisti Lala Schneider em vários espetáculos: Fred e Cloé, Estou te escrevendo de um lugar distante, O vampiro e a polaquinha, Electra, entre tantos, e era inacreditável a disponibilidade que esta atriz tinha para fazer qualquer papel e trabalhava com diretores dos mais variados naipes e, sempre me vinha um desejo de um dia poder dirigi-la. Sonho? Pretensão? Talvez.
Uma mulher e um homem. Ambos com o olhar no presente. Abertos ao mundo, à cultura, à contemporaneidade. Não temiam nada. Pretendiam e faziam. Com garra, amor, e muito esforço. Acabamos convidando (eu e o produtor Jewan Antunes) Lala Schneider em 1999 para integrar um projeto chamado Ensina-me a Viver. Um texto que contava a história de uma idosa que tinha grande paixão pela vida, e encontra um jovem que tem um desejo mórbido em viver. Ela adorou o projeto e topou. Deste convite à concretização do espetáculo 6 anos se passaram.
O tempo vai passando e o Irmão Albano tem problemas de saúde, vai viver na casa dos Irmãos Maristas para se tratar. Ele fazia falta na universidade. Sentia falta de sua presença e de seu olhar quando nos encontrávamos. Os anos se passaram e em 2004 o projeto foi aprovado, começa a captação e a Lala se coloca a disposição para fazê-lo! Ótimo. De Ensina-me a Viver, tornou-se Tempo de Amar. Começamos a trabalhar na viabilização deste evento. Mas a fatalidade se coloca mais uma vez na vida desta grande mulher e, ela sofre um acidente automobilístico onde sofre fratura no fêmur. Cirurgia. 4 meses de cama.

Pausa.

Reflexão.

Lala pergunta um dia no hospital: ''E o nosso projeto, Laercio? Será que terei condições de fazê-lo?'' Olhei bem no fundo dos olhos da Lala e disse: ''Este projeto só tem sentido se for para você fazer e eu tenho 1 ano para realizá-lo. Calma. Se trate, que este papel é seu!'' Lembro dos olhos vivos dela e sua gargalhada, era a alegria que brotava do seu coração.

Os médicos ficaram surpresos com a sua recuperação. Da cama, para a cadeira de rodas, depois para o andador, e em seguida para a bengala. Lá estava A Lala se recuperando novamente de mais um trauma. Era sua garra de viver, o seu bom humor e a vontade de estar trabalhando que a fez ressurgir. Como fênix. Lala voa e começa a trabalhar novamente. Ainda enferma filma com os irmãos Schumann, e começamos a ensaiar a peça em outubro de 2005. Lá está a Lala mais uma vez encenando mais um espetáculo de teatro, com seus 80 anos de vida, 55 de carreira e muita história para contar.

Irmão Albano comemora junto à comunidade universitária a quase chegada dos seus noventa anos! Não acreditava neste momento! Um reencontro! A vida estava querendo que este homem deixasse registrado perante os que o acompanharam ou para aqueles que mal o conhecia, o quanto de importância ele tinha para a educação do Paraná!

Dia 28 de fevereiro de 2007, Lala Schneider e Irmão Albano nos deixam. Serenos. Cônscios do dever cumprido. ''Combateram o bom combate'', como dizia S. Paulo, e como combateram.

Saudades.


Laercio Ruffa, diretor artístico do Grupo de Teatro Tanahora, da PUC/PR

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