Hipócrates e Eu

‘‘As aulas tornaram-se pesadas cargas diárias a suportar no caminho que nos
separava dos exames’’

  Adentrei na faculdade de Medicina pela porta dos fundos: fui o último nome a ser mencionado na relação dos 60 felizardos aprovados pela distinta instituição. Pois a nossa faculdade era o que se costuma chamar, com boca oblativa, de uma instituição.
  Tão antiga e tradicional quanto a outra, a Federal, por lá circulavam alguns dos grandes mestres da história médica recente do Paraná, os Marios de Abreu, os Félix, os Átilas. Nos laboratórios e corredores dos hospitais respirava-se respeito e orgulho por pertencer a uma casta tão admirável de homens devotados ao bem estar público e humano. Nas conversas, os colegas faziam olhos profundos e encovados quando falavam dos mestres. Estes, detentores da estatura moral mais elevada, destilavam conhecimentos abundantes que todos copiavam obsessiva e febrilmente em posição de curvamento e serena submissão.
  Envolvido pela promessa de um futuro cristalino, ao qual aspirava e pelo qual tinha dedicado tanto empenho, eu participava desse frenesi religioso como um devoto. Até que um dia, como um Bartleby universitário, eu parei e levantei a cabeça. O mundo parou quando vi todos ao meu redor concentrados na tarefa de copiar e copiar e copiar convulsiva e ininterruptamente. O tempo congelou quando vi o mestre, austero e circunspecto, circulando ao redor da sala inclinada, o avental irrepreensivelmente branco e as mãos cuidadosamente cruzadas nas costas, retroprojetor acionado e voz alterosa. Sentia a proximidade e o afastamento de que tantos falam quando se referem à arte moderna. O estranhamento que nos provoca um Picasso. A convalescença a que nos leva um Goya. E tudo aquilo, de repente, começou a me parecer insano. Não conseguia mais retornar à posição curvada.
  Tornara-se impossível continuar copiando eternamente. E isto, naquele ambiente, era fatal. Meus cadernos tornaram-se um caos; nos períodos de provas, era obrigado a xerocar páginas alheias (doce Eneida, nome virgiliano e beleza alemã, que me cedia candidamente os seus cadernos primorosos!). Os interesses foram se dissolvendo, os questionamentos se avolumando e o tédio crescendo, imenso, devorador. O encanto pela fisiologia, a compreensão bioquímica, os detetivescos caminhos clínicas, até mesmo uma derradeira paixão pela neurologia – nada era capaz de reacender o ânimo e reavivar a luz que um sábio havia acendido na antiga Grécia e que, naqueles dias, se apagava dentro de mim. As aulas tornaram-se pesadas cargas diárias a suportar no caminho que nos separava dos exames.
  Foi assim, lentamente, que o mundo perdeu um médico. E, Hipócrates, um seguidor.
Antônio Cescatto, publicitário


A arte é eterna?

‘‘Em todo o mundo teatros fecham suas salas, pois não há platéia’’

  Se um dia um disco-voador descesse no Jardim do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, e o extra-terráqueo entrasse para visitar o museu, talvez acontecesse isso:
  Ele pararia em frente a um quadro e perguntaria a um funcionário do museu:
  –O que é isso?
  O funcionário responderia:
  – Essa é uma obra de arte. E o ET iria ainda questionar:
  – Por que as pessoas vem aqui ver essa obra?
  – O funcionário diria: ‘‘Essas obras dão as pessoas sabor estético. A arte é a expressão das emoções, através de uma forma ética e estética.
  O ET faria a pergunta mais importante:
  – Então, vocês não poderiam viver sem essas obras de arte?
  O funcionário ficaria confuso, e não conseguiria responder.
  A arte não é eterna. A humanidade viveu dois milhões de anos sem muitas ferramentas, e não precisava da arte. No futuro também, a humanidade poderá viver sem arte. As artes finalizam pela evolução própria que fazem, iniciam um novo caminho que logo se esgota também. Por exemplo, o teatro que tem mil anos de história pregressa, hoje está terminando, porque o teatro nasceu quando as ferramentas tecnológicas não existiam. Em todo o mundo teatros fecham suas salas, pois não há platéia. O cinema, chamado de sétima arte, é mais novo que o teatro, enfrenta uma crise também. O desenvolvimento da tecnologia do computador esta matando a visita às salas de cinema. As pessoas assistem seus filmes nas suas casas, no seus DVD ou VCD.
  As pinturas artísticas também estão acabando, hoje os quadros são apenas parte da decoração, perderam o significado artístico. Todas as técnicas de pintura são conhecidas, todos podemos pintar bons quadros. A arte abstrata também finalizou. Um dia vai chegar esse fim para a literatura, as palavras vão perder seu valor artístico. As artes se originam em algumas condições, que lhes significam e lhes dão valor, nesse ambiente desenvolvem-se, e existem enquanto as condições que lhes deram origem também co-existirem. Então, a música clássica nasceu na era feudal e servia para aristocracia, hoje ela já gastou toda sua vida, não há mais aristocracia . Existem ainda rádios e concertos de música clássica, mas são poucas as pessoas que se interessam...
  Finalmente, a arte não é eterna! A condição original não existe mais? Então, a arte também não. O pós-modernismo disse que é o fim da história. Eu não concordo com isso, mas penso que algumas artes acabam.
Erol Anar, escritor turco radicado em Curitiba

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