EXPRESSO
Ter ou ser
Todo mundo que se dá bem tem que se sentir culpado porque tomou o lugar do outro?
Ninguém gosta de dizer quanto ganha, mas adora mostrar o que tem. Por que será que os salários são sempre um segredo enquanto as posses estão mais facilmente à vista de todos? Por outro lado, não tem graça poder comprar uma Mercedes enquanto você pensa que seu chefe acha você um idiota. Quanto filho de rico se contorce toda noite por não se sentir merecedor do que tem? E a raiva de quem trabalha, trabalha e ainda assim não tem nada?
Existe um valor implícito que aparece na comparação entre o ter e o ser que cria cunhas capazes de rachar uma alma ao meio. Quando alguém ganha alguma bonificação, por exemplo, é quase impossível para muitas pessoas não pensar no valor daquele cheque como sendo representativo do valor daquele indivíduo, porque está ligado ao seu trabalho ou do seu lugar na escala hierárquica, mas se você ganha na loteria, só pode se orgulhar da sorte. Devemos ter desprezo pelos infelizes portadores de bilhetes premiados? Na verdade, parece um absurdo até cogitar que o valor de algo como um ser humano pudesse ser calculado em dólar, fere o bom senso, mas é uma das forças que dirige o mercado; o sujeito vale quanto pesa, o valor de seu trabalho ou da posição que ocupa (up or out, ou você sobe ou cai fora). Mesmo os winners são na verdade também losers, porque foram avaliados e ainda serão. É aí que está o vexame que vira vício.
Todo mundo concorda que o que você tem não define quem você é, mas na hora H, você pode cair mais uma vez na armadilha e desistir de ir àquela festa chique (ou pior, ir de táxi), porque seu carro é um lixo e lá só vai bacana. Ou, se você é o bacana, não vai mentir e dizer que não sente um enorme prazer de saber que se deu bem em relação aos outros. Ter e ser parecem vir grudados um no outro, forçando você sempre a decidir entre o bem e o mal, como Erich Fromm demonstrou tão elegantemente em sua última obra, Ter ou Ser.
A pergunta clássica é: Só pode ser assim?
Examinando essa questão do ponto de vista da forma, urge uma pergunta: O ter pode surgir de uma maneira justa e ética ou sempre envolve desonestidade? Todo mundo que se dá bem tem que se sentir culpado porque tomou o lugar do outro? E será que para ser de uma maneira verdadeira é preciso tirar a roupa, subir uma montanha e passar fome e frio sem fazer cara feia? Eu quero ser também, mas dá para levar meu travesseiro? O abrir mão é intrínseco ao ser? A ganância é parte do ter? Ou será que é possível reformular essa questão?
Algo novo surge quando entre o ter e o ser coloca-se o poder fazer. Um bom oficial jamais insiste numa ordem impossível de ser cumprida. Talvez um dos momentos mais felizes da vida ocorre quando você descobre exatamente do que é capaz. Estabelece-se um delicado equilíbrio entre a necessidade, o desejo e a possibilidade que torna as tarefas possíveis na maioria das vezes.
Finalmente, o poder carrega consigo o valor de suas intenções, ou seja, o sucesso é ótimo, mas não a qualquer custo. Maquiavel que me perdoe, mas hoje à noite quero encostar a cabeça no travesseiro (que eu trouxe) e dormir.
Mário Márcio Negrão, médico neurologista, psicoterapeuta e professor
Eu e as pipocas
Se o objetivo é comer pipoca, por que ir ao cinema?
Cheguei a temer pela minha identidade: quem sou? Dias atrás entrei no cinema um pouco atrasado e, na tela estava projetada uma outra sala de cinema. Nas poltronas, como que sentados, saquinhos cheios de pipoca, como se fossem gente.
Ia iniciar o filme. A animação (eu como pipoca), para minha decepção, era para falar do conforto do cinema, das saídas de emergência e do pedido para desligar os telefones celulares.
Em geral, quando termina uma sessão, principalmente dessas do final do dia, e você entra na seguinte, o odor encontrado nas salas de cinema de Curitiba é o mesmo de uma cozinha sem exaustor: gordura pós-fritura.
Não bastasse o odor, que de tão forte quase faz subir o colesterol, há pipocas nas poltronas e no chão. Junto, latinhas de refrigerantes.
Esse ambiente me contraria e faz com que limite minhas idas ao cinema. Revela também as transformações dos costumes, do comportamento e da cultura. Antigamente claro que nem tão antigamente assim , a pipoca era menos presente no cinema. O mais importante era o filme.
Às vezes, íamos ao cinema para depois debater o que passava em algum bar da cidade. Lembro-me principalmente da Cinemateca da Fundação Cultural de Curitiba. Para freqüentá-la, tinha que ter carteirinha. Havia, naquele período (segunda metade da década de 1970), uma certa agitação político-cultural. Através do cinema e de eventos, como os festivais, debatíamos a política.
Minha primeira ida à Cinemateca, se não me falha a memória, foi pelas mãos de Homero Teixeira de Carvalho (Catadores de Papel). Lá, fui apresentado à turma que, na época, fazia cinema ou eram cinéfilos, dos quais aqui, mesmo correndo o risco da imprecisão e da injustiça, lembro alguns nomes: Francisco Alves dos Santos (Frei Chico), Valêncio Xavier, Peter Lorenzo, Ivan Bittencourt, Solange Stecz, Rui Vezzaro, irmãos (irmãs) Wagner, Nivaldo Lopes. Mais tarde acabei me tornando pediatra dos filhos de alguns deles.
Apesar de muito ter aprendido com eles, nunca fui um cinéfilo. Por isso, raramente me meto a fazer críticas sobre filmes. Mas as salas e os ambientes onde os filmes são exibidos posso criticar. Aliás, vou criticar também a qualidade das pipocas: as de nem tão antigamente eram mais gostosas. Agora, parecem, no aspecto e na mordida, esponjas.
Se o objetivo é comer pipoca, por que ir ao cinema? Se o objetivo é ir ao cinema, por que a pipoca? Posso ser chato, mas pipoca e filme só combinam na sala de casa, em noites frias. No cinema, o barulho do manuseio do saquinho, o abrir da lata de refrigerante e, às vezes, até uma eructação (arroto) me incomodam.
Fiquei preocupado e decepcionado com a animação que antecede os filmes. Preocupado porque já estão nos tratando como se não tivéssemos identidade: somos todos sacos de pipocas. Decepcionado porque esperava que o recado dado fosse para que não comessem pipocas naquela sala. Mas fazer o quê, se hoje a mensagem é secundária, o filme aparece como mero passatempo.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal (PT-PR)





