EXPRESSO
Músicas de bar
Curitiba tem uma pá de barzinhos. Uns concentrados no Largo da Ordem, centro histórico da cidade, outros per aí. Freqüentei alguns deles na meninice e tempos depois. E a cara era muito parecida. A minha, a deles. Lá, no palquinho (um tablado de 2 x 2, ou menos), em meio a caixas de som e, algumas vezes, diante de uma simplória bateria, encontrava-se um músico que, em geral, tocava e cantava. Em sua frente, uma pasta negra, abarrotada de partituras ou cifras daquelas revistinhas Coro de Cordas, além de alguns manuscritos em vermelho. Entre as canções, havia algumas que eram cantadas há mais de dez anos, infalíveis na noite de sábado e, por que não dizer, na de domingo? Isso sem falar na sexta-feira, onde eram o prato principal. A primeira sem dúvida era Andança, que animava o povo, mais precisamente o da mesa da diretoria, que fazia o corinho ...milévamôôôôr, amôôôôr, milévamôôr, puurondifôr quéruserseupar... Depois, o músico tocava outra, e outra, e logo vinha Flor de Liz, e outra, e Te Amo Espanhola, e assim dan las once, e ele ainda não tocou Paixão; não demora nada. Dia seguinte, ele varia com Paisagem da Janela, Tarde em Itapoã ou Nos Bailes da Vida.
Muitas vezes, ia ao bar só para escutar e acabava no palco também cantando ou, como se dizia, dando uma canja. Perguntava se o músico tocava Nada por Mim ou O Bêbado e a Equilibrista. Se tocasse Trem do Pantanal, eu também topava. Lembro-me que minha primeira canja foi com Fascinação, num boteco pequeno, escuro e meio vazio, chamado Bartoque, na Rua Saldanha Marinho, perto do antigo Cinema 1. Mas eu gostava mesmo era de cantar Sorte, Tigresa, Sampa, Regra 3, Encontros e Despedidas, Fullgás, Garoto de Aluguel ... O duro era quando o músico não sabia tocar nenhuma dessas, ou não tinha a partitura, ou nem conhecia.
Cantei também um tempo no bar de um amigo. O músico, que já trabalhava lá, embora dedilhasse quadradinho, incorporou o swing da bossa e do samba mais antigo, e fazia um play-back agradável para os temas que escolhi e que ele, até então, desconhecia. Dos ensaios em sua casa, debutavam nas noites de quarta: Dindi, Luíza, Corcovado, Acontece, Último Desejo... Da seleção, também constavam Onde Anda Você, Garota de Ipanema, Verde, O Barquinho, Samba de Orly, Retrato em Branco e Preto... Arriscamos, numa de minhas últimas noites, Bye, Bye Brasil. É óbvio que não saiu nada no tempo e na letra mas foi uma tentativa nobre e deliciosa! Ah! Ia me esquecendo de Samba em Prelúdio, em que conseguíamos fazer o dueto, misturando as frases, o que dá um efeito fenomenal, digno dessa composição natural e indolente que é Vinícius de Moraes.
Canções, canções e canções... difíceis de cantar, difíceis de tocar, difíceis de esquecer e difíceis de lembrar. Raios!, como é mesmo o nome daquela? ...Aquela conhecida somente pelo refrão. Ah, Saudosa Maloca!
Pra arrematar, lembro-me de uma situação, numa chácara perto da cidade, com alguns amigos e recém-conhecidos, em que o baralho foi deixado de lado pra dar lugar à típica roda de samba, que incluiu também alguns sertanejos. Instrumentos não havia. Mas a vontade de cantar e a alma macunaíma da brasilidade foram mais que suficientes pra resolver o problema: um batucava no banquinho, outro tocava colherinha no copo e outro sacudia chocalho improvisado para acompanhar a cantoria. Ocorre que apenas um dos participantes sabia a letra da música nós só sabíamos que tinha muita letra até chegar o refrão. Mas ficamos ali, firmes, no compasso, aguardando a hora de entrar em cena. E foi uma beleza! Quando o moço enunciou ...e prá esquecer nóis cantemo assim..., parece que todos os batuques, colherinhas e chocalhos entraram em transe, fazendo o barulho necessário para que todos cantássemos, em uníssono, ...saudosa maloca, maloca querida dim dim dondi nós passemo dias feliz de nossa vida...
É assim também nos bares, quando o refrão de algumas músicas é cantado com tanta intimidade que parece fazer parte da história de cada um. Mas é só o refrão! Não me pergunte como começa a música que eu não sei. O mais bonito de tudo isso é que prática e habilidade é o que menos conta, nessas horas de puro desperdício de alegria, irreverência e descontração.
Claudia Cavalheiro Ortiz, escritora
Paradoxo do sucesso
Gombrich escreveu no livro de sua autoria História da Arte , no primeiro parágrafo : na realidade não existe arte, existem somente artistas. Se pensarmos nessa idéia, e fizermos uma comparação , não há literatura, mas somente escritores; ou não há poemas, mas sim poetas; nãoo há romances, mas sim romancistas.
Há autoridade na literatura? Quem irá determinar que escrito tem valor literário e estético ou não? Se existe esta autoridade, quem será? Escritor, crítico de literatura , editor ou leitores? Será a mídia?
Para mim, não existe autoridade que definirá o valor literário e estético, ou mesmo ético das obras escritas. Se aprofundarmos nossos conhecimentos na história da literatura e da vida de famosos escritores, encontraremos muitos exemplos disso.
Quando o grande escritor Dostoiévski escreveu seu livro Gente Pobre ,sua estréia literária, que revela uma impressionante maturidade se considerarmos que tinha então apenas 25 anos; Belinski, grande crítico literário da época, elogiou-o muito. Ele iniciou sua carreira literária muito bem. Mas os livros seguintes, Belinski, Turgeniev também outros críticos e escritores da época, o criticaram negativamente; e as críticas negativas foram pesadas. Até Dostoiévski morrer a situação não se modificou. No entanto hoje, ele esta no topo da literatura, a maior parte dos críticos atuais o colocam como o melhor escritor de todos os tempos.
Um escritor de vanguarda da literatura norte-americana, Jack London, não tinha publicada, curtas histórias que escrevia e enviava para revistas de literatura durante anos. Suas curtas histórias retornavam para ele com educadas recusas para publicação. Contudo, hoje essas mesmas histórias são exemplos para a literatura norte-americana.
O escritor brasileiro Paulo Coelho, durante anos não teve publicado seus livros, ele disse que: trinta e duas editoras rejeitaram a publicação do seu primeiro livro, ele pensava que sua habilidade como escritor estava comprometida. A Academia Brasileira de Letras também o rejeitou como membro . Mais tarde esta mesma instituição o aceitou como membro, recebendo-o com todas as honras, numa cerimônia. O que mudou? Paulo Coelho é o mesmo escritor! O que mudou foi que seus livros foram traduzidos para inúmeras línguas ao redor do mundo, vendeu milhtes de livros e tornou-se sucesso na Europa, EUA, e outras partes do mundo.
Então, ninguém, nem editores, nem outros escritores, nem críticos de literatura são os que definem a medida do sucesso do escritor. O escritor tem força para passar por eles e chegar ao topo da literatura universal.
Erol Anar, escritor turco, radicado em Curitiba





