Sobre Tempo, Coelhos e René Descartes
Uma coisa que sempre me fascinou, e imagino que deve ser o mesmo para muitos, é o fato de que a maneira com que concebemos o tempo pode determinar em parte a qualidade de nossa saúde mental. Por exemplo, porque o René Descartes, que costumava ficar horas debaixo das cobertas podia passar a manhã inteira na cama e ainda ter tempo para fazer o que fez, enquanto esperar a hora do almoço nos braços de Orfeu acaba sendo um problema para a maioria dos outros mortais como eu e talvez até você? Não deve ser apenas uma questão de inteligência, pois eu conheço muita gente genial em que práticas assim pode acabar diluindo suas capacidades. Seja lá como for, pelo menos para o grande sábio francês seu tempo de cama era mais vital do que poderia parecer à primeira vista, pois quando Catarina da Suécia o contratou como instrutor, obrigando-o a acordar bem cedinho, em pouco tempo o filósofo sucumbiu ao inverno nórdico e morreu de pneumonia. Muitos artistas são assim também: seus talentos e até ocasionalmente suas próprias vidas se dissipam como a névoa quando eles são colocados numa rotina que não corresponda à sua maneira natural de ser. Qual é essa relação entre tempo, saúde e qualidade de vida e o que deve ser feito para alcançar esse estado de equilíbrio tão procurado?
Inicialmente, a noção do tempo era ditada pela natureza, pois tudo girava em torno das influências que a passagem das estações exercia sobre a agricultura e o comportamento social. Até hoje, em algumas partes dos Estados Unidos , feiras agropecuárias constituem uma parte integrante do ritmo de vida, e o vai e vem das colheitas e invernadas eternamente atreladas à passagem sistemática entre primavera, verão, outono e inverno pulsam dentro das pessoas nessas regiões como um grande coração coletivo. Na música, as Quatro Estações de Vivaldi, assim como a Sagração da Primavera de Stravinsky, e a maravilhosa Sexta Sinfonia de Beethoven nos lembra que nosso laço com a natureza é forte e digno do maior respeito se quisermos continuar existindo. No entanto, para a maioria das pessoas ''civilizadas'', a existência das quatro estações é tão importante quanto saber quantas dessas sinfonias possui quatro movimentos.
Para mim, um modelo da noção do tempo adotado pelas pessoas do mundo moderno que sofre de estresse foi bem ilustrado por Lewis Carol em sua obra ''Alice no País das Maravilhas''. Nessa história, a nossa heroína quase se perde entre o tipo de comportamento apresentado pelo coelho apressado, aquele que vivia correndo com um relógio na mão, e o coelho da festa de chá, eternamente aprisionado dentro de uma cerimônia. O primeiro transformava sua falta de objetivos numa reta infinita enquanto que o segundo num círculo igualmente eterno. Ninguém chegava a lugar algum, mas ambos sentiam uma falsa sensação de importância, talvez devido a enorme ansiedade por estar num caminho sem fim nem propósito. Quem já teve que dirigir entre Uberlândia e Brasília naquela reta que parece que não vai acabar nunca ou quem já se perdeu dentro de um labirinto sabe de que estou falando. Ao que parece, pautar sua vida numa linha de tempo ou em tarefas cumpridas pode igualmente estragar sua saúde se estiver faltando uma certa paixão pelo percurso em si.
Palmas para Descartes que tinha a coragem de ser um homem tão envolvido no prazer de rolar na cama que esqueceu da vida e sendo assim, quase entendeu o que era a vida. Quem já viveu o suficiente sabe que viver é o suficiente. Não é o tempo nem o cumprimento do dever que vai fazer alguém feliz. Concordo que sem esses dois elementos a vida vira um caos, mas ainda é vida. O pior dos momentos ainda é melhor que nenhum momento, pois sempre tem o mistério daquilo que ainda não aconteceu que pode virar tudo e fazer dos pessimistas mentirosos. Afinal, o único momento que você pode ter certeza de que existe é o próprio momento no qual você está existindo. Se isto não deixa você feliz, talvez nada o fará.
Mário Márcio Negrão, neurologista, psicoterapeuta e professor universitário


Reminiscências curitibanas
  Outro dia vi na TV uma matéria sobre a vinda do papa Bento XVI ao Brasil. Aí comecei a pensar e cheguei à conclusão que o primeiro papa de que tenho lembrança é João XXIII. Também me ocorreu que eu já estava na faculdade quando Paulo VI e João Paulo I morreram e que, pior ainda, eu já tinha me formado quando João Paulo II visitou Curitiba.
  Estes pensamentos me levaram a triste conclusão de que estou ficando velho. Mas como sou meio masoquista, continuei exercitando minhas reminiscências e segui lembrando de coisas que vi e situações que vivi nesta Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, muitas das quais nem existem mais.
  Por exemplo, ainda na área religiosa eu fui coroinha e participei da cruzada eucarística. Eu sou de um tempo em que existiam irmãos marianos, filhas de Maria e senhoras do apostolado da oração, e que na Quaresma quem dançasse criava rabo.
  Na infância eu rodei pião, fiz balão e apostei muita figurinha no bafo e no tique. Eu sou do tempo em que as melhores escolas eram as públicas e por isso estudei no Grupo Escolar D. Pedro II, onde a gente usava guarda-pó. Lembro que com a turma do Grupo assisti minha primeira peça teatral no antigo Teatro de Bolso da Praça Rui Barbosa, quando ali ainda tinha um quartel. Aliás, eu me alistei no quartel da Praça Ouvidor Pardinho!
  Eu troquei gibi na saída do Cine Marajó e também assisti muita sessão dupla no Arlequim e no Guarani, além de diversas sessões da meia noite no Astor. Falando em cinemas, eu vi muitos filmes no Ópera, no Avenida, no Rivoli, no Lido, no Scala, no Groff, no Morguenau e no São João, que depois só passava filme pornô. Pensando bem, sou da época pré filmes pornôs, onde a gente lia escondido ‘‘catecismos’’ e as revistinhas do Carlos Zéfiro.
  Eu torci pelo Barranco numa corrida de carretera. Eu vi jogo de futebol nos estádios do Britânia e do Primavera e comecei a torcer pelo Ferroviário quando o craque do time que foi bicampeão se chamava Bídio. Eu tinha até um adesivo do Boca Negra e confesso, acompanhei ao vivo pela TV a Copa de 1970.
  No Natal minha mãe me levava para ver a gruta encantada do Hermes Macedo e o presépio animado que era montado no Instituto de Educação. À noite nós íamos até a casa do Hermes Macedo, ali pertinho da pracinha do Batel, para ver a decoração natalina.
  Quando comecei a sair na noite, o primeiro bar que conheci foi o Sibemol. Lá eu assisti Lápis tocar. Como também vi o Blindagem tocando no Bebedouro, encontrei o Leminski no Kapelle e terminei muitas noites no Velha Adega e no Saul do Trompete. No inverno tomei canja no Bar do Cardoso e jantei muito no Bar Palácio, quando ele ainda funcionava na Barão do Rio Branco. Meu Deus, eu era ouvinte das rádios Guairacá e Iguaçu.
  Eu fiz compras nas lojas Mazer, na Slopper, na Mau Mau e no Prosdócimo e não perdia um programa do Capitão Furacão. Eu sou do tempo em que o homem nú vivia separado da mulher e que a diversão de final de semana era ir ao Passeio Público andar de pedalinho ou visitar a feirinha hippie da Praça Zacarias.
  Enfim, isto tudo é um grande teste para você descobrir sua idade. Se conheceu todas as coisas mencionadas você tem 50 anos ou mais. Se lembrou de boa parte está na faixa dos 40 e se foram apenas algumas delas, você certamente deve estar aí pelos 30. Agora, se você está perto dos 20, não tinha nem nascido quando a maioria destas coisas acabou. Aí meu conselho é ‘‘vá procurar no Google’’.
Antonio Carlos Domingues, jornalista e produtor cultural

mockup