Encontro com o mestre

Medo é bom. Mas tem que ser medo útil  
– Qual o maior inimigo do homem ? - saltitando como um moleque, na estreita sala escura do bairro da Liberdade, o pequeno mestre oriental desfruta com gozo indescritível da indecisão que sua pergunta repentina provoca.
  – Não sei, professor. Talvez .... a inconsciência ? Como se desafiasse o senso comum e a respeitabilidade que seus 80 e poucos anos exigiriam (ou que os preceitos jesuíticos, católicos, pragmáticos e médicos da minha formação esperariam) ele desata em uma gargalhada vigorosa e desabusada, que sacode o ambiente empoeirado e faz o assistente, até então impassível, levantar os óculos e esboçar um sorriso.
  – Ora, mas que infantilidade! Que inconsciência, que nada. O maior inimigo do homem é a mulher.
  Por alguns segundos chego a duvidar que atravessei São Paulo e esperei por duas horas na recepção do restaurante macrobiótico para ouvir aquilo. Mas o entusiasmo do mestre é tão contagiante que não resisto à pergunta:
  – Por quE a mulher, professor?
  – Como publicitário, devia saber. Já não disse então que o homem tem um destino? Pois é, deve se relacionar com esse destino, non?
  E onde o destino do homem se manifesta mais? – dessa vez ele não espera minha iniciativa para responder: – Na convivência – e avança as duas mãos na minha direção, esfregando os dois indicadores para demonstrar que, nessa ‘‘convivência’’, está embutido um inevitável atrito. – Tem que conviver. Não ter medo de briga. Sabe o que é vida?
  Denotando um renovado espanto pela pergunta inesperada, levanto inquiritoriamente os dois supercílios, me preparando para uma resposta que, de tão óbvia, me escapa.
  – Vida é briga. Se não tem briga, não bom. Não precisa ter medo de briga na vida conjugal, nem em nenhum território da vida.
  O terreno, agora, me parece familiar. Sentindo-me habilitado a dar meu testemunho existencial sobre a experiência longamente acumulada no cotidiano dos relacionamentos amorosos, imbuído da sabedoria adquirida na difícil arte da convivência a dois que longas horas de psicoterapia ajudaram a consolidar, súbita e milagrosamente afinado com a filosofia idiossincrática do mestre, esboço uma nova tentativa.
- Realmente, não precisa ter medo.
  O professor baixa a voz, olha nos meus olhos e diz, delicado:
  – Non, precisa sim. Medo é bom. Mas tem que ser medo útil.
  Medo renovador.
Antônio Cescatto, publicitário


Curitiba: o melhor carnaval

No carnaval, em Curitiba, também são silenciosos os tambores
  No carnaval deste ano me lembrei de uma crônica de Josué Guimarães, publicada no jornal ‘‘Folha de S.Paulo’’, não sei se na década de 1970 ou de 1980. No texto, Josué dizia que a melhor coisa era passar as férias de verão em Porto Alegre. Com a mesma visão, afirmo que o melhor carnaval é o de Curitiba.
  Afirmava o cronista que, nas férias em Porto Alegre, as ruas estavam vazias. Nos restaurantes, os garçons faziam fila para servir. Na praia, por outro lado, era fila para tudo, inclusive para entrar no mar. O primeiro que entrasse seria o último a sair, não por vontade própria, mas porque atrás dele ia entrando tanta gente que ia sendo empurrado cada vez mais para o fundo, e não conseguia voltar para a areia.
  O carnaval em Curitiba é muito semelhante às férias de Josué Guimarães. O maior barulho que tem são os pássaros ao amanhecer. Sabiás, bem-te-vis, periquitos. Aqui onde moro, tem até um papagaio chamando o ‘‘loro’’, que nunca aparece. ‘‘Fogo apagou’’ que me persegue, com os sabiás e bem-te-vis, desde a infância, não poderia faltar.
  Recentemente estive de férias em Serrambi, no litoral de Pernambuco. Todos os dias de manhã, até o entardecer, ouvia o cantar, que me parece lamentoso da ‘‘Fogo apagou’’. Mesmo depois das férias continuo ouvindo esta rolinha, tanto em Brasília como em Curitiba, no seu contínuo lamento.
  Bem, mas o carnaval em Curitiba é daquele que até bêbado, para ser atropelado, tem que se esforçar – de tão vazias que ficam as ruas da cidade. O maior ruído é mesmo o cantar dos pássaros, e um dos que chamam a atenção são os barulhentos periquitinhos verdes, que resolveram nesses dias visitar minha janela.
  Mas, não só no carnaval, o que me deixa curioso é o seguinte: o que faz o quero-quero, que antes vivia nas várzeas, brejos e campos, e agora vive nas cidades e voa tanto de dia quanto de noite?
  Lembrei-me do Josué Guimarães e achei por bem procurar alguma coisa dele e sobre ele para ler. Descobri que Josué iniciou sua carreira na literatura por Curitiba, quando, em 1969, ganhou o 2º Concurso de Contos do Paraná, pelos contos ‘‘João do Rosário’’, ‘‘Mãos sujas de terra’’ e ‘‘O princípio e o fim’’, que em 1970 foram publicados no livro ‘‘Os ladrões’’ – segundo os conhecedores, início de sua produção literária.
  Anos atrás li ‘‘Os tambores silenciosos’’, do mesmo autor, cuja história passa na Semana da Pátria e versa sobre um prefeito autoritário que proíbe a circulação de jornais e a posse de aparelhos de rádio. Não queria o prefeito que as pessoas ficassem ouvindo notícias ruins.
  No carnaval, em Curitiba, também são silenciosos os tambores. Aproveitei para não ler jornais ou ouvir rádios. Afinal, porque ficar ouvindo tantas notícias ruins sobre a violência? No meu silêncio, permiti só o cantar dos pássaros e uma chegadinha no cinema para ver o infernal ‘‘Céu de Suely’’.
Dr. Rosinha, médico pediatra, deputado federal (PT-PR)

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